Soluções elétricas para viagens de aventura

A mobilidade em nossos equipamentos essenciais tem sido cada vez mais trivial, entretanto, a cada novo equipamento que a tecnologia lhe oferece, você terá uma nova bateria com um novo carregador específico que terá que ser carregada em algum lugar.

GPS, SPOT, máquina fotográfica, filmadora, aparelhos para ouvir música, celular, leitor de eBook, tablet, laptop… e assim por diante. Uma excelente opção é resumir todos esses equipamentos em um único smartphone, ou coisa parecida.

Apesar do smartphone ser eficiente em suas funções, é bom lembrar que não terá a mesma performance que cada um desses equipamentos oferece de forma isolada. Mesmo assim, para quem deseja, por exemplo, produzir fotos ou vídeos um pouco melhores, poderá comprar acessórios como lentes e microfones que se adaptam ao seu aparelho. Outros podem preferir escrever de forma mais agradável utilizando teclados externos, ou ainda podem adquirir pequenas caixas de som para um áudio de qualidade e tantos outros acessórios que melhoram o desempenho do smartphone em alguma função específica que deseja.

Por outro lado, concentrando todas as suas necessidades em um único equipamento, se algo acontecer com ele todos os recursos e facilidades estarão perdidos. Isso sem falar no significante aumento em consumo de eletricidade que esse aparelho irá sofrer durante a viagem.

Com Eddy, o amigo belga em Ladakh. © Rafaela Asprino

É importante saber suas reais necessidades para não ficar sem carga no meio do caminho, dependendo da situação terá que economizar o uso de seus aparelhos. Se em seu roteiro pretende dormir em pousadas ou albergues, poderá carregar suas baterias durante a noite. Se utilizar um único aparelho para tudo é bom ter sempre uma ou duas baterias extras conforme a intensidade de uso, ou então, lançar mão de bancos de baterias, que nada mais são que bateiras maiores (ou um conjunto de baterias) que, uma vez carregadas, podem carregar baterias menores, geralmente através de uma saída USB.

Para quem deseja ter ainda mais autonomia, os dínamos modernos, instalados dentro do cubo da roda dianteira, têm uma eficiência incrível, e praticamente não pesam nas pedaladas. A saída é de 6 volts, 3 watts, mas através de um adaptador se converte em um carregador USB (5 volts com 500 mA).

Conhecemos um belga em Ladakh que utilizava seu smartphone para tudo e, através do dínamo, após algumas três ou quatro horas de pedal, o aparelho já acusava carga completa (de 40% chegava aos 100% de carga). Atualmente ele utiliza um sistema ainda mais elaborado que carrega uma bateria maior para depois, também através de uma saída USB, carregar seu aparelho. Com isso consegue uma saída mais potente (5 volts com 1.000 mA).

Levei uma grande placa solar para Ladakh, mas minha adaptação ficou muito delicada. Só podia abrir a placa na hora do almoço ou no acampamento. © Rafaela Asprino

A eletricidade é um bem cada vez mais acessível em todo o mundo. Sem ela o consumo, mola mestre do mercado de capital, fica muito limitado. São raros os locais do mundo onde não temos acesso à eletricidade.

Em nossas últimas viagens pedalamos por regiões com sérias restrições na oferta de eletricidade e apesar dos problemas que isso nos gera, ficamos felizes em conviver com pessoas pouco influenciadas pelos meios de comunicação de massa e, consequentemente, pelo consumismo.

Uma das vertentes de nosso projeto para divulgar o cicloturismo no Brasil são viagens de aventura. Enquanto em nossos guias oferecemos informações precisas, com duas casas depois da vírgula, para incentivar aventuras de bicicleta, editamos um documentário de cada viagem que fazemos com o fim de dar dicas, disseminar o conhecimento de locais pouco comuns para viajar e aguçar o interesse dos cicloturistas em viagens de aventura.

Não somos fortes, por isso temos que ser estritos em nossos equipamentos, mesmo assim, na última viagem levamos quase cinco quilos em equipamentos elétricos e eletrônicos para poder bem coletar as imagens dos documentários (quase o dobro do peso de nossa barraca).
As baterias de nossos equipamentos trabalham com 7,2 volts (quase um padrão entre as câmeras), isso é quase o dobro dos 3,7 volts da bateria de um smartphone. O dínamo não é uma solução para nós.

© Rafaela Asprino

No motor home a energia solar tem se mostrado a mais eficiente para nosso estilo de vida (econômico e independente) e decidimos utilizá-la em nossas viagens de bicicleta, pois, no geral, para carregar uma bateria, não é necessário uma fonte poderosa de eletricidade, e sim constância de fornecimento de eletricidade por longo período.

Em Ladakh, reaproveitei uma placa solar dobrável que utilizava no motor home (com saída de 12 volts, 12 watts, 1.000mA). Reconheço que meus trabalhos de “reaproveitamento” a deixaram bem compacta, mas ficou delicada demais para ser utilizada durante as pedaladas. Só podia abrir a placa quando parava para almoçar ou armar o acampamento.

Em nossa última viagem testei uma compacta placa solar dobrável de 500 gramas que produz até 7 watts. Apesar de menos poderosa, deu conta do recado, pois era compacta e resistente o bastante para ser carregada todo o tempo por cima da bagagem, com a vantagem de continuar sendo útil mesmo em caminhadas ou dias de descanso. Com a abundância de sol e economia no uso dos equipamentos, nunca ficamos sem eletricidade, pois conseguimos carregar até uma bateria e meia por dia. Se tivéssemos que viajar por lugares menos ensolarados como o Reino Unido, teríamos que utilizar placas maiores, pois sua eficiência cai muito em dias nublados.
A tecnologia sempre promete vantagens e vende o sonho de que a vida fica mais fácil com ela. Talvez sim, mas depende de como nos deixamos levar pelos avanços tecnológicos.

“Acho interessante observar que a tecnologia trouxe facilidades e conveniência, mas não conseguiu diminuir minha bagagem. Ao contrário, de certa forma, ela aumentou minha dependência de certas facilidades.”

Não é sem uma grande dose de saudosismo que me lembro das minhas necessidades e soluções elétricas quando fiz a volta ao mundo em 1993. Meu consumo de eletricidade se limitava a quatro equipamentos: câmera fotográfica, odômetro, walkman e uma lanterna.
A câmera era reflex, quase totalmente mecânica, tinha uma pilha pequena como a de um relógio para alimentar o fotômetro e durava por muito tempo, assim como a pilha do odômetro.
Nas noites solitárias, depois do jantar, me permitia gastar um pouco das pilhas do walkman ouvindo uma fita K7 inteira, de toda forma, sempre tinha comigo uma caneta tipo bic para poder rebobinar a fita sem gastar pilha (se você não compreende como uma caneta economiza pilha é porque você é muito novo, pergunte para alguém mais velho que ele te explica).

Apesar de “supermoderna”, com sistema de instalação na cabeça e tudo mais, ao invés de LED minha lanterna usava lâmpadas de filamento que consomem pilha como uma draga. Em países longe da linha do Equador, durante o inverno, eu entrava na barraca por volta das 17 h, quando o sol se punha, e só saía às 08 h do outro dia, após surgirem os primeiros raios de luz. Sem pilhas recarregáveis, lançava mão da luz charmosa, aconchegante e barata de uma vela de cera.

© Rafaela Asprino

Naquela época não precisava verificar ou responder e-mails, pois não havia internet. Se precisasse me comunicar tinha que pegar um papel e escrever uma carta. Em três anos e meio de viagem fiz somente 1.200 fotos, quantidade que podemos fazer em menos de uma semana nos dias de hoje.

Acho interessante observar que a tecnologia trouxe facilidades e conveniência, mas não conseguiu diminuir minha bagagem. Ao contrário, de certa forma, ela aumentou minha dependência de certas facilidades.

Para a maioria das pessoas, nossa lista de equipamentos eletrônicos é um exagero, mas temos um propósito para tudo isso. Veja a foto de nossas bicicletas saindo da estação Avaroa em direção ao Sul de Lipez. Estávamos carregando comida para dez dias e água para três, mesmo assim não parecem bicicletas exageradamente carregadas.

Numa aventura de bicicleta, buscamos justamente sair da zona de conforto. Aprendemos que as restrições nos deixam mais fortes, pois nos fazem ver que conseguimos sobreviver com pouco e quando voltamos para o motor home percebemos que nossa vida é abundante.
Às vezes, o melhor não é ter um equipamento a mais e sim aprender a viver sem a necessidade dele.

 

Bicicleta elétrica e cicloturismo: Isso combina?

O mestre Antonio Olinto conceitua cicloturismo da seguinte forma: “Cicloturismo nada mais é que fazer turismo utilizando como veículo a bicicleta ou viajar de bicicleta. Minha concepção de cicloturismo está profundamente ligada com minha experiência de vida e uma viagem de três anos e meio com bicicleta onde percorri 46.620 km em 34 países de quatro continentes”.

Ele ainda explica que uma característica básica do cicloturismo é percorrer longas distâncias, uma marca registrada do cicloturista é a carga na bicicleta, e há ainda uma mudança primordial na concepção do exercício físico, já que o cicloturista não procura recordes ou grandes velocidades, mas sim recreação e conhecimento.

Tomando por base as definições acima, seria possível incluirmos a bicicleta elétrica equiparada à bicicleta convencional, sem descaracterizar o conceito de cicloturismo?

Todo cicloturista que se preze vai afirmar que pedalar é uma fonte de grande prazer para ele. Mas nem todas as pessoas, em todos os lugares, são capazes de viajar com uma bicicleta, seja pela condição física ou até por fatores psicológicos, como o sentimento de incapacidade, seja por causas naturais, como muitos aclives ou ventos fortes.

Seria possível, com uma bicicleta elétrica, dar a oportunidade a essas pessoas de experimentar o cicloturismo?

A discussão, ao final, não é sobre substituir o ato de pedalar; é sobre fomentar a bicicleta e ampliar o alcance da experiência do cicloturismo.

Em agosto de 2013 (edição 31), publicamos como matéria de capa a viagem do pesquisador holandês Gijs Stevers, que percorreu 20 mil quilômetros do extremo norte europeu, em Cabo Norte, Noruega, até o extremo sul da África, em Cabo da Boa Esperança, com uma bicicleta elétrica. Sua jornada teve como propósito conhecer iniciativas em prol da energia renovável.

Perfeitamente em sintonia com este tema, Gijs afirmou à época: “eu sei que a bicicleta elétrica é menos sustentável do que uma bicicleta normal, e que eu não pude carregar sua bateria apenas usando energia renovável ao longo da viagem. No entanto, ela ainda é muito mais sustentável que qualquer outro meio de transporte. Poderia ter feito a viagem de moto, carro, transporte público, mas essas opções deixariam uma pegada maior no meio ambiente”.

Para ilustrar, ele afirmou que após a viagem instalou 16 painéis solares na casa de seus parentes e em duas semanas a instalação produziu a mesma quantidade de energia consumida pela e-bike nos 10 meses de viagem. Por contar com o auxílio elétrico, Gijs pôde transportar uma bagagem mais pesada, com cerca de 70 kg, um verdadeiro exagero para cicloturistas.

Na edição 55 dessa revista, Ruben Wanderley Filho, do grupo Os Dinossauros, contou que na travessia de 375 km que realizaram pelas Higlands Escocesas, alguns integrantes alugaram mountain bikes com assistência elétrica, as chamadas E-MTBs.

Ele conta que “as mountain bikes elétricas são hoje uma febre na Europa, principalmente para quem já atingiu uma certa idade, como é o caso da maioria do grupo que foi às Higlands, em torno dos 60 anos”. As bicicletas elétricas têm se tornando uma tendência, especialmente para casais e pessoas com diferentes idades, por possibilitar a equalização do ritmo da pedalada.

Segundo Ruben, é ilusão achar que a aventura perde importância por contar com o auxílio elétrico. Nas Higlands, por exemplo, o grupo de Ruben enfrentou muitas valas formadas pelo escoamento do degelo com pedras grandes e soltas, exigindo sempre aceleração extra para ultrapassá-las.

“O mais importante é curtir e se divertir nas trilhas”, afirma. Para ele, que estava fotografando a viagem, a E-MTB representou mais uma vantagem: já que o ninguém gosta de ficar parando para fotos, o auxílio elétrico permite uma retomada rápida para alcançar os demais.

Se você torceu o nariz tentando argumentar que bicicleta elétrica não é bicicleta, pense em como Melissa, Ruben, Gijs e tantos outros se sentiram ao viajar com suas bicicletas elétricas. Certamente, eles atraíram a curiosidade das pessoas, como é comum aos cicloturistas. Aproveitaram o caminho de uma forma que não seria possível como nenhum outro meio de transporte. Provaram da introspecção e do autoconhecimento que o cicloturismo oferece. E fizeram isso de uma maneira sustentável.

Alguns deles não teriam conseguido sem o auxílio elétrico, e essa característica inclusiva da e-bike é um complemento a este veículo mágico que se chama bicicleta.