Pedalando em plena Floresta Amazônica

Trabalhar com bicicleta sempre foi muito prazeroso para mim. Hoje, como parte da equipe de treinamentos de vendas da Shimano, estou conhecendo lugares e pessoas incríveis, que só a bicicleta mesmo poderia proporcionar. Divido aqui uma dessas aventuras.

Em minha recente viagem a trabalho a Manaus, no Amazonas, tive a oportunidade de conhecer a maior floresta do mundo da melhor maneira que uma pessoa apaixonada por bikes pode querer: pedalando. Pois é, foi assim. Uma trilha incrível, irada, sensacional.

Emerson Miranda, ex–capitão do Exército com treinamento em ambiente de selva, convidou-me para pedalar em uma trilha recentemente descoberta por ele e seu grupo de pedal Junglebike. Saímos do hotel às 05 h 30 min para um café regional que seria o ponto de encontro para o pedal. Lá experimentei a famosa e tradicional tapioca de queijo coalho com tucumã, uma espécie de fruta que faz uma combinação perfeita com queijo. Depois, chegamos às margens do rio Tarumã Açu, pegamos nossas magrelas e seguimos a bordo de pequenos barcos movidos a motor de popa conhecidos naquela região como voadeiras.

Ao desembarcar na outra margem, já iniciamos a trilha em um singletrack que dá acesso a diversas palafitas, casas construídas sobre estacas de madeira, da comunidade existente ali. Em seguida pedalamos em uma estrada vicinal ampla e, como ainda era cedo, foi um pedal bem agradável de fazer. Depois pegamos uma estrada estreita coberta pela copa das árvores, seguida por um singletrack que dá acesso à primeira cachoeira onde paramos para nos refrescar e curtir um pouco o peso da água fazendo massagem em nossas costas. De lá encaramos uma subida no meio da floresta e mais uma vez passamos por um igarapé de água fresca e cristalina. Subidas impossíveis de pedalar são vencidas com a certeza de que o outro lado nos reserva singletracks que serão feitos em alta velocidade.

Tive a oportunidade de conhecer a maior floresta do mundo da melhor maneira que uma pessoa apaixonada por bikes pode querer: pedalando.

© Emerson Miranda

Visitamos também outra cachoeira em um local de preservação do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Ao nos aproximarmos da cachoeira, os singletracks foram ficando mais técnicos, com muitas raízes aflorando do solo. Passamos por árvores frondosas, aliás, outro obstáculo muito comum são árvores caídas devido ao processo de renovação da mata. Quando apenas um tronco impede a passagem, basta levantar a bike e passar por cima, mas quando a copa da árvore impede o caminho, aí é mais difícil e complicado seguir em frente.

© Emerson Miranda

Depois de cerca de três horas de pedal, hora da pausa para um lanche reforçado. No menu, o restante de uma tapioca pedida no café da manhã regional que antecede qualquer trilha. A região possui águas cristalinas nos igarapés, o que é incomum. Geralmente a coloração destas águas lembra um chá. Na verdade um verda- » deiro  chá de folhas secas do chão da floresta. A segunda cachoeira garantiu um banho relaxante e refrescante diante do calor amazônico intenso. A volta foi feita por uma pequena estrada vicinal, coberta pela copa das árvores e com o piso totalmente coberto de folhas, que compõem um visual fantástico. Trecho realmente muito bonito e agradável de se pedalar. Para fluir melhor pegamos um estradão de terra batida (conhecida pelos moradores como Ramal). Foi a parte mais dura, pois todo o percurso é castigado pelo sol.

© Emerson Miranda

Quase ao final do trecho fizemos uma parada para esperar um colega que quebrou a corrente. Vale ressaltar que todos do grupo Junglebike são muito receptivos e solícitos. Aguardamos na sombra de um belo jambeiro carregado. Nada melhor que relembrar os tempos de criança e saborear uma fruta fresquinha colhida diretamente do pé.

© Emerson Miranda

Na sequência final do trajeto, chegamos a outro trecho cujo percurso é um típico exemplo de ‘estrada abandonada’, onde encontramos até um automóvel, uma Rural deixada por lá. Depois de 45 km retornamos à mesma comunidade de onde tínhamos saído. Chegando lá, bastou ligar para os homens das voadeiras virem nos buscar. Cansados e com fome, nada melhor para finalizar a trilha do que saborear o tradicional peixe tambaqui assado na brasa.

Ai que frio!!!

COMO A BICICLETA PODE AJUDAR A TRANSFORMAR OS PARÂMETROS PARA SENTIR O PRAZER DAS COISAS SIMPLES, COMO A DELÍCIA DE UM BANHO QUENTE DEPOIS DE UMA PEDALADA EM UM DIA FRIO.

Ao contrário de nossos amigos europeus, a chegada do inverno não é motivo de pesar. Vivemos em um país tropical e em várias regiões brasileiras o inverno é uma das estações mais agradáveis, pois o calor não é tão intenso e principalmente para quem vai viajar de bicicleta é ideal: chove pouco, os dias tem temperatura amena com céu azul e a noite esfria para que se possa dormir mais confortavelmente.

Morei dez anos em Curitiba, a capital mais fria do país. Com estações acentuadas ficava fascinado ao observar a diferença entre elas e posso dizer que não são muitos que gostam do frio.

Curitiba se transforma com o calor, as pessoas saem mais na rua, as moças usam menos roupa e parece que todos estão mais felizes. Observei o mesmo nos países europeus. Depois de passar o inverno todo encorujados dentro de confortáveis casas com calefação, no verão, meus amigos europeus queriam ficar o tempo todo fora de casa e aproveitar os longos períodos de claridade solar.

Analisando melhor percebi que meu fascínio estava ligado ao fato de ver e sentir o diferente. O europeu não compreendia por que eu queria passar o inverno pedalando pela Europa. Ora, pelo mesmo motivo que a estação mais concorrida de Gramado é o inverno: pessoas de todo país vão para lá na esperança de ver neve e ter uma experiência diferente.

© Rafaela Asprino

Todo ano a televisão faz a mesma matéria mostrando os sorrisos de turistas totalmente encapuzados brincando com a geada grossa que caiu na madrugada. As melhores matérias são aquelas onde o repórter entrevista um nordestino jogando bolas de neve. Claro, o sorriso dele é sempre mais brilhante, por razões óbvias.

O frio na viagem dá uma pitada a mais de aventura, pois agrega um desafio, um obstáculo extra e para quem gosta de ficar nas montanhas é uma constante. Mas mesmo quando tinha uma vida sedentária em Curitiba e ainda treinava para um dia poder viajar de bicicleta, sentia algo especial no frio que está além da preferência.

Quando acordava cedo no final de semana para treinar ficava o dia todo fora. Na região de Curitiba é comum que durante todo um dia a cor predominante seja o cinza, mas existe um ditado muito certo; “Névoa baixa, sol que racha”. Ou seja, na melhor das hipóteses começava o dia no frio e na névoa densa que tocando meu corpo transforma-se em gélidas gotículas. Em poucas horas o sol vinha finalmente reaquecer o corpo lentamente até chegar aos ossos. Logo a temperatura aumentava e tinha que parar para retirar as tantas roupas que me cobriam. À tarde o processo acontece ao reverso e voltava a me cobrir.

Lembro-me claramente de que quando treinava no final de semana, ao voltar para casa algo estava diferente. Tomava banho no mesmo local, com o mesmo chuveiro, sentava no mesmo sofá e preparava um jantar costumeiro, mas tudo parecia ter um sabor diferente, pois minha percepção mudava.

“SE TIVESSE OPTADO POR FICAR EM CASA, LOGO O CONFORTO DO MEU ACONCHEGANTE LAR SERIA COMO UMA PRISÃO QUE ME IMPÕE ATRAVÉS DE UMA PREGUIÇA CRÔNICA A IDEIA DE QUE ESTÁ FRIO LÁ FORA E NÃO É BOM PARA PEDALAR.”

© Rafaela Asprino

O frio do dia fazia com que a água quente do chuveiro se transformasse em uma carícia, uma massagem tirando a tensão da musculatura que involuntariamente tenta se aquecer pelo atrito da contração. O consumo de energia do exercício aumenta com a necessidade de aquecer o corpo e a fome amplia o paladar.

Vários músculos foram utilizados ao máximo, o ácido lático produzido me fazia sentir pequenas dores induzindo à imobilização enquanto meu organismo começa o lento trabalho de recuperar e aumentar a capacidade de todo o sistema. Para isto meu corpo entregava uma descarga de endorfina e sentia alegria no torpor de simplesmente ficar sentado em meu sofá.

Como é fácil perder a consciência das coisas. Os parâmetros do homem moderno têm sido tão confortáveis que perdemos a noção do que é realmente necessário para nosso contentamento. Nada melhor que trocar um pouco os parâmetros para voltar a sentir o prazer de coisas simples como sentar no sofá e ver um bom filme.

Se tivesse optado por ficar em casa, logo o conforto do meu aconchegante lar seria como uma prisão que me impõe através de uma preguiça crônica a ideia de que está frio lá fora e não é bom para pedalar. Ora, quem costuma viajar de bicicleta sabe que nunca chove o dia inteiro, nunca é frio o dia inteiro e sempre pode ficar mais quente enquanto estamos pedalando.

Pois são justamente as dificuldades enfrentadas durante o dia que fizeram aquele conforto me libertar ao invés de aprisionar, além de devolver sabor às coisas que já não era capaz de sentir.

Antes de começar meus treinamentos, no final do domingo, ao ouvir a música do Fantástico sabia que mais um fim de semana estava acabando. Lembrava-me de tudo o que queria fazer, mas não deu certo. Também vinha à mente as tantas coisas que me esperavam para serem resolvidas no escritório, acho que posso classificar meu sentimento como deprimente.

Quando comecei a treinar, nem a música do Fantástico conseguia me deprimir, pois o torpor da endorfina trazia a sensação de que, mesmo que não tivesse feito tudo que queria no final de semana, ganhara o dia com meu treino.

Você talvez nem goste de viajar de bicicleta, mas cada vez que encara um clima difícil com sua bicicleta o sentimento é igual. Quando volta para casa é como se tivesse ganhado o dia ao contrário de quando cede à preguiça e fica o dia todo enfurnado. A concentração de esforços nas dificuldades faz com que desconcentremos dos problemas do dia a dia de forma mais eficiente que quando nos dedicamos somente ao relaxamento puro e simples.

É incrível como surgem soluções durante as pedaladas, após um treino os problemas parecem menores ou mais simples. Na física, a inércia é uma propriedade da matéria que tende a mantê-la em seu estado, para vencê-la sempre é necessária alguma força. O ciclista sente isto todas as vezes que tem que arrancar e parar a bicicleta. Uma vez vencida a inércia do estático a tendência é que o corpo siga em movimento.

Da mesma forma, pode ser necessário um pouco de força no começo para pedalar no inverno, mas acredito que devemos sempre lembrar da importância de sairmos da zona de conforto, inclusive para poder apreciar seu valor.

© Rafaela Asprino

“QUEM COSTUMA VIAJAR DE BICICLETA SABE QUE NUNCA CHOVE O DIA INTEIRO, NUNCA É FRIO O DIA INTEIRO E SEMPRE PODE FICAR MAIS QUENTE ENQUANTO ESTAMOS PEDALANDO.”

Do ciclista ao cicloturista

 

Outro dia falamos sobre os encontros que tivemos com outros cicloturistas. Às vezes fico imaginando quais características nos fazem reconhecer um cicloturista. Claro que em Ladakh é fácil, mas como seria em nosso dia a dia?

Como comentei no outro artigo, os equipamentos podem mostrar um pouco da cultura e da personalidade do cicloturista. Algo que podemos perceber no Brasil é que muitos cicloturistas descendem do mountain bike, afinal, no geral, para viajar de bicicleta alguém terá que treinar e já estar capacitado a pedalar por horas e horas, ou seja, já existe um ciclista capacitado antes de um cicloturista de primeira viagem.

Baseando-se nos princípios de agilidade de uma competição, quem já se acostumou a usar uma mochila de hidratação começa sua primeira pequena viagem carregando todo o equipamento da mesma forma, ou seja, todo o peso extra é colocado no local onde o equilíbrio é mais comprometido. Além de aquecer e machucar as costas, o peso da mochila é integralmente transferido para o corpo, que por sua vez passa para o ponto onde fica apoiado na bicicleta, ou seja, a já tão sofrida parte “sentante” sofre mais ainda. Geralmente todo este sofrimento costuma ensinar rapidamente aos ciclistas que não é bom carregar nada nas costas.

Como em cada mudança existe sempre um coeficiente de rejeição, fica sempre algum resíduo do que era antes, que o ciclista ainda não quer deixar para trás. Na primeira viagem tem sempre alguém que quando comprou o quadro nem sabia que deveria ter pontos de fixação para futuramente colocar um bagageiro, ou pior, comprou um quadro com suspensão traseira que impede a fixação de bagageiro. De longe poderá reconhecer este cicloturista, pois seu bagageiro é pequeno e está preso no canote de selim. Já ouvi falar de muitos bagageiros destes que quebraram, no entanto, pode ser uma solução razoavelmente eficiente para quem viaja com carro de apoio ou em regiões de clima bom com facilidades pelo caminho, que suprime a necessidade de carregar muito equipamento.

Conforme aumenta o tamanho da viagem, aumenta a necessidade de carregar água e podemos ver surgir suportes de caramanholas extras por todos os lados ou outras formas alternativas de carregá-la.

Pode-se observar em um ciclista com o tempo de viagem a tendência de ir deixando os uniformes característicos de competições para usar roupas do dia a dia a fim de misturar-se melhor com a gente do caminho.

Muitos que viajam de bicicleta pela primeira vez tornam-se viciados logo na primeira dose. Começam a planejar novas viagens compulsivamente, assim como compram todo tipo de equipamento “necessário”.

Um mecânico hábil pode fazer furação em um quadro ou instalar um bagageiro de uma forma adaptada sem grandes prejuízos, desde que não seja muito solicitado em uma grande viagem.

Bem, agora com o bagageiro traseiro instalado, o ciclista já encontra mais espaço e confiança, logo instala um par de alforjes, que nada mais é que bolsas idênticas colocadas nos dois lados do bagageiro para ajudar no equilíbrio do conjunto e manter o peso da bagagem mais próximo do centro de gravidade da bicicleta, o ponto onde está o movimento central.

Será que já observou como são grandes os pratos em restaurante por quilo? Com um prato grande o faturamento aumenta, pois cobram por quilo e o cliente tem sempre a tendência de encher o prato seja qual for o tamanho, independente da fome. Da mesma forma, vendo aquele espaço vazio em cima do bagageiro, o cicloturista não resiste ao convite para preenchê-lo.

Alguns acham que o bagageiro traseiro é pouco e instalam um bagageiro sobre a roda dianteira, colocam um alforje e às vezes até algo mais na parte de cima. Isso sem falar na maravilhosa “bolsa de guidão”. Nada é mais característico em um cicloturista que uma bolsa de guidão, um verdadeiro símbolo, um sonho de consumo.

Ganhei minha primeira bolsa de um amigo espanhol em Pamplona. Muito básica, nada mais era que uma simples bolsa amarrada no guidão através de fitas, sem qualquer estrutura ou sustentação. Não importava, estava feliz com ela e pedalei até os Estados Unidos quando comprei uma de verdade, que está até hoje na bicicleta exposta no Museu da Bicicleta de Joinville.

A bolsa de guidão fica suspensa longe de qualquer parte rígida da bicicleta e mesmo que a bike chacoalhe, objetos delicados dentro dela estarão protegidos. Sua outra função deriva do poder que tem de ser rapidamente destacável da bicicleta. Costumo carregar nela documentos e dinheiro, mantendo-a sempre comigo. Nem sei quantas vezes fui reconhecido ou reconheci cicloturistas, mesmo sem bicicleta, simplesmente por levarem a tiracolo uma bolsa de guidão. É sempre uma festa, pois a gente cumprimenta na certeza, não há como errar, é mais certo do que ver uma marca de queimado de sol no meio da coxa.

Sem muita experiência, mesmo os melhores técnicos em planejamento costumam levar coisas a mais. Recebemos muitos e-mails de cicloturistas contando que superestimaram as necessidades da viagem quando carregaram a bicicleta. A Rafaela, antes de me conhecer, logo no segundo dia de viagem pelo Caminho da Fé, despachou quase todo seu equipamento de volta para casa, com alforje e tudo, manteve somente uma pequena mochila embrulhada em um plástico e presa no bagageiro.

Quando comecei a volta ao mundo, uma bicicleta cheia de bagagem me fascinava. Parecia que quanto mais bagagem maior seria a aventura. Pouco a pouco fui reduzindo o que carregava para um “somente o essencial”, mais “essencial” que antes. O tempo de viagem me mostrou necessidades diferentes das que eu imaginava e acabei chegando a nossa configuração atual. Para reduzir o equipamento, mais que uma busca de melhor eficiência nas pedaladas, faz parte do aprendizado maior que uma viagem de bicicleta pode dar, o desapego e a simplicidade. Às vezes o melhor é carregar isso ou aquilo a mais, nem que seja só por precaução. Entretanto, às vezes a evolução passa por um “deixar para trás”, por um “não possuir”, por um “tomar um risco” de não ter e perceber que nem faz falta. Às vezes, menos é mais. Tentamos, sempre que possível, trazer este aprendizado para nosso dia a dia fora das viagens.

A carga na bicicleta é a maneira pela qual os cicloturistas são reconhecidos, sem ela somos ciclistas normais. No dia que cheguei de bicicleta em Paris fui direto para a Torre Eiffel e cinco parisienses formaram uma roda para falar comigo, parecia uma coletiva de imprensa. No outro dia, sem carga, ninguém nem me cumprimentava pelas ruas da mesma cidade.
Como não há regras, não temos como saber em que “fase evolutiva” um cicloturista está. Será que ele errou no cálculo? Será que ele está indo para um lugar muito distante e difícil? Também pode ser um minimalista do tipo “roots”? Será que já passou por aqueles lugares que sonhou ir um dia?

Existe uma forma simples de saber. Basta ir até ele e perguntar. Este é o grande serviço que a bicicleta carregada faz, atrai as pessoas dos lugares para vir conversar com o viajante de uma forma especialmente compulsiva e carismática.

Se prestarmos atenção, em sua retórica reconhecemos o grau de conhecimento do cicloturista. Mais que os altos números dos quilômetros da viagem ou de países visitados, em suas histórias podemos perceber sua sabedoria. Mais que os feitos, busque os aprendizados que teve: é sempre gratificante parar para conversar com um cicloturista, pois ele tem experiências de vida para nos contar.

© Rafaela Asprino

Para viajar de bicicleta alguém terá que treinar e já estar capacitado a pedalar por horas e horas, ou seja, já existe um ciclista capacitado antes de um cicloturista de primeira viagem.


Do ciclista ao cicloturista

O ciclista mountain biker
Na eminência de um cicloturista geralmente há um ciclista capacitado: e quase sempre ele vem do mountain biking.

Bola nas costas
Na primeira cicloviagem, acostumado com a mochila de hidratação, o ciclista tende a levar todo o seu equipamento nas costas.

Pontos de fixação
Para transferir o equipamento das costas para a bike, o ciclista descobre que precisa de pontos de fixação. Se não houver, usa um bagageiro preso no canote do selim.

Mais água
Com o aumento das distâncias das viagens, surgem suportes de caramanholas extras por toda a bicicleta.

Novas roupas
As roupas de competição são substituídas por roupas cotidianas, para melhor inserção nas comunidades por onde passa.

Bagagem
Na empolgação o ciclista planeja várias viagens e aumenta a bagagem, instalando um par de alforjes traseiros e ocupando o espaço sobre o bagageiro.

Bagagem frontal
Depois, ele também instala um bagageiro sobre a roda dianteira e uma bolsa de guidão. O pensamento, nesse momento, é algo como: “quanto mais bagagem, maior a aventura”.

Menos é mais
Finalmente, o ciclista descobre a configuração ideal de bagagem para a sua viagem.

Desapego e simplicidade
Com esses dois princípios, sua bagagem reduz para somente o que é “essencial”, e assim ele consegue chegar a todos os lugares que sonhou.

Interação com as pessoas
Enquanto pedala, atrai de forma compulsiva e carismática pessoas interessadas em sua história e com elas compartilha sua experiência de vida.

A arte da viagem não planejada

 

Sem um plano sólido e meticuloso, uma viagem pode rapidamente acabar em algum lugar que você nunca esperou. E quem disse que há algo de errado com isso? Se perder, não marcar a quilometragem correta ou pedalar por um caminho mais longo do que você esperava pode ser uma aventura. E as melhores aventuras não são planejadas!

Parece haver uma grande quantidade de pessoas interessadas em aventura de bicicleta nos dias de hoje, a julgar pelo número de reportagens e postagens em redes sociais que leio. Viajar sob o poder do pedal é verdadeiramente uma mudança de vida. Mas será que precisa de tanta coisa para isso?

Pedalar rumo ao desconhecido é uma perspectiva completamente aterrorizante. Você não sabe nada sobre o que vem pela frente, você não sabe por onde começar e você imagina que sem saber essas coisas, você está desamparado.

O mecanismo de defesa natural é tentar coletar o máximo de conhecimento, para armar a sua autoconfiança contra o desconhecido. Rotas, logística, equipamentos, roteiros, prazos, soluções de meios de comunicação … Você constrói uma fortaleza intransponível de planejamento para que o desconhecido pareça um pouco menos assustador.

Mas ninguém lhe diz que o desconhecido realmente não importa, que o mundo não é um lugar perigoso. Que as pessoas não são ruins. Que ninguém vai te pegar. Que estradas e caminhos virão naturalmente.

Saber absolutamente tudo é desnecessário – a descoberta é um professor melhor do que um guia. Onde você realmente acabar sua viagem – e quando e como – geralmente é irrelevante para a experiência que você tem no caminho.

“O seguro morreu de velho”, assim vão dizer. Mas cuidado com o dogma. Questione tudo, até mesmo as mais sábias frases. Há sempre uma exceção à regra. Obviamente, se vai passar por uma região em conflito, é melhor se informar bem. Mas se o seu passeio é pelo interior, basta um mapa com cidades próximas como referência.

Eu planejei viajar por um roteiro já mapeado e “planilhado”. Tudo certo e cheio de informações no guia. Foi então que ao final de um dos dias de viagem, cheguei na beira da represa para pegar a balsa e atravessar até a cidade do outro lado, onde eu planejava pernoitar. Qual não foi a minha surpresa quando um morador local me disse que a balsa já havia terminado o expediente há 15 minutos! Mas no guia dizia que eu ainda tinha uma hora de tempo sobrando para pegá-la… O jeito foi dar a volta pela represa.

Um trajeto de mais 11 km percorridos no escuro (só uma lanterninha para ajudar), com estrada de terra e um sobe e desce sem fim, recortando toda a represa até chegar, tarde da noite, na cidade. Sentei em um trailer lanchonete que estava na praça vazia e pedi um lanche que foi cruelmente devorado!

A pousada em que planejava ficar já estava fechada e perguntei ao dono do trailer se conhecia outro lugar onde eu poderia pernoitar. E para a minha felicidade a pousada era dele! “Como está vazia, eu fechei e vim para a praça tocar meu outro negócio…”, ele disse sorrindo.

Bonito mesmo é quando tudo acontece por acaso, sem data, sem horário…

Deixe com uma lousa em branco

Eu não havia planejado isso. E no fim tive uma grata surpresa. Também tive que engolir toda a minha raiva e o meu ego e assumir que estava errado em meus planos.

Se o seu objetivo é ter uma aventura de mudança de vida, por que ter um plano para que isso acabe o mais rápido e previsível possível?

Se você quer aprender alguma coisa, saia com uma lousa em branco. Prepare-se, por todos os meios, mas não planeje tudo com uma pesquisa meticulosa. Nem todos os planos são tão necessários e você pode perceber que existem muitos objetivos que realmente não precisa alcançar. Não se prenda a ter que posar de forma certa para sair na foto, nem ter que andar vestido parecendo um piloto de corridas. Nada disso importa!

E se há uma decisão que eu estou feliz por ter feito, foi de largar todo esse planejamento e buscar o meu verdadeiro foco, que é o desejo de viajar de bicicleta.

Bonito mesmo é quando tudo acontece por acaso, sem data, sem horário…

Bicicletas em Amsterdã

A bicicleta está em todos os momentos da vida das pessoas em Amsterdã. Na cidade famosa por ter mais bikes do que pessoas, é impossível sair de casa sem ver várias por todos os lados.

Durante uma semana pude pedalar por essa cidade e registrar instantes que me chamaram a atenção. A bicicleta está sempre presente, de maneira direta, com pessoas pedalando, ou de maneira indireta, com a bike servindo de background para a fotografia.

As imagens percorrem locais como Vondelpark, o maior parque da cidade, Oosterpark, Waterlooplein, que é um mercado a céu aberto onde é possível achar bikes usadas por ótimos preços, e o estacionamento com três andares para bicicletas, ao lado do Amsterdam Centraal.

Independentemente de idade ou classe econômica, a bicicleta está intrínseca no cotidiano de Amsterdã.

© Victor Balde
© Victor Balde
© Victor Balde
© Victor Balde
© Victor Balde
© Victor Balde
© Victor Balde
© Victor Balde

Manutenção na viagem

A bicicleta que utilizei na volta ao mundo rodou quase 50 mil quilômetros. Não posso deixar de imaginar que, se fosse para comprar um automóvel com essa quilometragem, teria que dar uma boa olhada antes de fechar o negócio. Motor, câmbio, embreagem, suspensão, bateria, lataria, portas… Tantos detalhes ocultos que podem nos deixar na mão. As concessionárias automotivas costumam oferecer promoções de revisão de férias, com um sem número de itens para o motorista poder viajar sossegado até a praia mais próxima. Mas quais seriam os itens essenciais a se verificar na bicicleta para uma viagem? Ao contrário de um carro, uma bicicleta se mostra toda sem mistérios para quem estiver disposto a observá-la com o mínimo de atenção.

Levante cada roda e impulsione-a suavemente com a mão para conferir se o freio está pegando. Basta olhar as sapatas ou pastilhas de freio para perceber seu desgaste. A corrente também está lá, exposta, e qualquer um pode perceber quando fica suja. Mesmo sem olhar, só pelo ruído, dá para saber que falta lubrificação.

Geralmente enquanto estou numa parada de descanso, aproveito para observar se tudo está de acordo, se nada está quebrado ou solto. Verifico cada parafuso, pois eles podem ir se soltando. Uma folga num parafuso pode rompê-lo ou causar a quebra de outra peça como, por exemplo, o bagageiro que se apoia nele.

Após pedalar por rodovias, sempre observo os pneus a fim de retirar pequenos cacos de vidro que se prendem à borracha e que vão penetrando aos poucos até atingir a câmara de ar.

O maior medo de quem possui um carro velho é ligar o motor e o mecânico dizer “está batendo válvula”, ou “a biela deve estar gasta”, ou ainda pior: “parece que tem um ruído no mancal do braço superior da rebimboca da parafuseta. A única saída é abrir para verificar”…

Numa bicicleta não é preciso ter ouvido de violinista para detectar problemas, pois os rolamentos são as únicas partes que podem oferecer obscuridade e/ou complexidade na observação de seu desgaste. Para evitar surpresas, teste periodicamente os rolamentos de sua bicicleta.

Cubos de pedal, cubos de roda, movimento central e caixa de direção, cada rolamento deve ser girado separadamente para saber seu estado de funcionamento. Tudo deve rodar livre e suave. Quando enrosca, pode significar sujeira ou desgaste. Se o rolamento for selado, deverá ser substituído, caso contrário poderá ser aberto, limpo e engraxado.

Os rolamentos não podem ter outro movimento além de rodar. O chamado “jogo” é uma folga causada pelo desgaste ou por falta de aperto, neste último caso, poderá gerar desgaste prematuro. Para verificar a folga no rolamento de roda, segure o aro com a mão e force de um lado para o outro como se estivesse tentando encostar o aro no garfo. No caso do rolamento de direção, é só empurrar a bicicleta para frente e para trás com o freio dianteiro acionado. A folga no movimento central é imediatamente perceptível, pois a coroa começa a jogar de um lado para o outro enquanto pedalamos e tende a encostar no passador de marchas.

Quando as esferas, as bacias ou os cônicos (componentes do rolamento) estão desgastados, aparecem pequenos buracos que impedem o aperto correto. As esferas são as mais fáceis de substituir. Durante uma viagem, nem sempre conseguimos trocar os cônicos ou as bacias, nesse caso, optamos por deixar uma pequena folga extra no rolamento para que se mantenha rodando livremente.

Limpar os rolamentos de roda é uma manutenção que costumava fazer a cada seis meses na volta ao mundo.

Aprendi a fazer a manutenção dos cubos quando ainda era criança, mas no começo da viagem de volta ao mundo esse trabalho tomou outra dimensão, permitam-me contar essa história…

Após pedalar por um tempo nos Pireneus, segui em direção aos Alpes pelo sul da França e, no meio de uma tarde ensolarada, depois de atravessar Toulouse e Castre, passa por mim um grupo com bicicletas de estrada, como se fosse um pelotão de competição.

O último dos ciclistas era um pouco mais velho que os outros e, quando me viu, diminuiu a velocidade, deixando o grupo para puxar conversa comigo. Um pouco em inglês, um pouco em francês, consegui explicar o que estava fazendo.

© Antonio Olinto

Muito simpático, o francês contou que era diretor do departamento de cicloturismo do clube de ciclismo da cidade de Castre. Ao saber a minha intenção de roteiro, ele me convidou para passar a noite em sua casa, pois morava perto do caminho que eu seguiria.

Nas conversas fui percebendo que era uma pessoa realmente especial. Contou que fez uma viagem de bicicleta pelo Canadá e Estados Unidos. Nada de diferente até ele completar: “viajamos com um grupo de cegos”.

A princípio, imaginei que fosse uma questão de erro na minha interpretação, mas a mímica para expressar cegueira é muito fácil e clara de se entender. Impressionado, perguntei: “mas como um cego pode viajar de bicicleta?”

Mostrando um álbum de fotos, ele explicou que era um grupo com várias bicicletas duplas (tandem), onde havia um vidente na frente e o cego pedalava atrás. Ele comentou: “eles não podem ver as paisagens, mas podem sentir tudo de forma mais intensa que um vidente. Eles adoravam a sensação do vento no rosto e da liberdade que a bicicleta proporciona”.

Era mês de agosto e, como estávamos longe da linha do Equador, o sol mantinha-se no céu por mais tempo. Após muita conversa, meu anfitrião me perguntou: “quando foi a última vez que fez revisão nos cubos de roda?”

Não havia completado três meses de viagem e tinha pedalado menos de 5.000 km. Sem constrangimentos, expliquei que minha bicicleta era nova e que não era preciso engraxar.

Com cara de espanto ele retruca: “não se pode confiar na lubrificação de fábrica, depois de utilizar um pouco a bicicleta o correto seria revisar e reapertar. O que acha de fazermos uma verificação?”

Ele levou-me à sua “oficina” e, a seu comando, abrimos os cubos, limpamos e observamos cada esfera, os cônicos e as bacias. O trabalho foi feito com uma incrível assepsia, parecia que preparávamos uma cirurgia.

Depois de engraxar e montar tudo, fizemos o aperto das porcas que travam os cônicos contra as esferas e, quando eu já ia montando a roda na bicicleta, ele me interrompeu para mostrar algo simples, mas que demonstra o grau de cuidado com a bicicleta na cultura do país berço do Tour de France.

Apoiando a roda com a mão esquerda ele delicadamente tocou o eixo com a ponta do polegar e do indicador direitos, fechou os olhos e girou lentamente. Depois comentou: “o rolamento deve estar bem apertado, mas não pode travar em momento algum. Fechando os olhos, poderá se concentrar e sentir o movimento das esferas. Agora faça você”.

Emocionando, percebi que estava recebendo uma lição de um sábio mestre, algo que a princípio parecia fora de propósito, mas que o tempo mostraria as vantagens. Foi como se estivesse no filme Karate Kid e o Senhor Miyagi me dissesse: “OlintoSan… Para ter “bom bicicleta”, deve sentir rolamentos… Feche olhos e sinta rolamentos… Não está bom, reajusta…  De novo… De novo… Lembrar sempre OlintoSan, tem que aprender sentir rolamentos…”

Olinto - Bicicleta no MOBI
© Antonio Olinto

Talvez, mais do que o culto nacional à bicicleta, a convivência com os cegos na viagem tenha aberto a visão de meu amigo francês. De toda forma, passei a cuidar melhor dos rolamentos a partir daí e, com exceção de duas esferas do cubo dianteiro, terminei a volta ao mundo com os mesmos cubos que saí do Brasil.

Pedal na Patagônia – Bariloche a Ushuaia

Setenta e cinco dias e três mil quilômetros pedalados pela Patagônia e Terra do Fogo, de Bariloche a Ushuaia.

© Rafael Garcia

A viagem na região da Patagônia é espetacular, pois você pedala praticamente todos os dias em vales rodeados pelas montanhas de pico nevado da Cordilheira dos Andes e por rios verdes e azuis. Apesar da beleza, é uma região com índices pluviométricos altos, pois as nuvens são barradas pela Cordilheira. Nesta região, cheguei a pegar cerca de 10 dias consecutivos de chuva.

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© Rafael Garcia

Quando se chega à região dos Pampas, o cenário muda completamente: vegetação de arbustos para todos os lados e muito vento, que é sem dúvida o maior desafio da viagem, fazendo muitos ciclistas desistirem e optarem pela carona para evitar a região.

© Rafael Garcia

Quando ainda estava na Carretera Austral, peguei um dia de vento contra absurdo, que foi ficando cada vez mais forte, até que chegou um momento em que tive que descer da bicicleta e segurar firme para não ser derrubado. Mesmo assim, a rajada seguinte literalmente assoprou eu e a bike para o chão.

Em outro dia, os ventos estavam tão fortes que eu mal saia do lugar. A solução foi começar o pedal no dia seguinte às 2 h da manhã, já que à noite o vento diminui significativamente.
Outra coisa que impressiona na região é a hospitalidade: certa vez fui hospedado por um ciclista que, ao sair no dia seguinte, deixou-me sozinho em sua casa, dizendo: “sinta-se à vontade”.

Para aqueles que desejam fazer uma cicloviagem, um conselho: crie coragem para começar e faça! Pode ser um choque emocional e físico no começo, mas a cicloviagem vai te virar de ponta cabeça, te chacoalhar, te mostrar que você ainda tem muito a aprender, e te devolver outra pessoa!

© Rafael Garcia

Cartagena Cycle Chic

Parceria com Revista Bicicleta, por Gil Sotero

A forma mais romântica de conhecer Cartagena das Índias, na Colômbia, a cidade que inspirou um dos maiores escritores latino-americanos, sem dúvida, é de bicicleta. Como sempre, recorro à literatura para planejar um roteiro. Na verdade eu amo combinar livros e bicicletas. Já ouvi que ambos são itens de design perfeitos e concordo. Quando comecei a pesquisar sobre meu destino, Cartagena das Índias, escolhi a minha Monareta Dobramátic de 1972. Por ser aro 20, que acho perfeito para os centros urbanos, por ter uma mecânica simples e estrutura resistente para suportar o “trato” das companhias aéreas. Além disso, sou fotógrafo e a escolha também foi estética. O resultado me surpreendeu.

Pedalando em Cartagena

Cartagena das Índias foi fundada em 1566 e batizada em homenagem a Cartagena, na Espanha. O centro histórico é conhecido como a cidade fortificada (cidade amuralhada), e foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco, em 1984. A população da cidade chega a quase um milhão de pessoas, mas durante os meses de dezembro e janeiro pode chegar a dois milhões.

Pedalar pela colorida La Heroica, como é conhecida a cidade histórica de Cartagena das Índias, é reviver os livros do escritor colombiano Gabriel Garcia Marques (Gabo). As ruas aprisionadas entre as muralhas parecem um labirinto mágico onde o amor e a loucura se encontram encarnadas pelas palavras de Gabo em cada esquina. Foi aqui o cenário do romance de Fermina Daza e Florentino Ariza, personagens do livro “O Amor nos Tempos de Cólera”. O livro me inspirou a andar tranquilamente pelas ruas de Gabo, mas antes de se aventurar e se perder pelas ruelas, a grande dica é baixar o áudio guia “La Cartagena de Gabo”, da Tierra Magna (disponível para smartphones e tablets) e fazer o tour seguindo os passos do escritor.

O passeio guiado começa e termina na Plaza Santo Domingo, exatamente onde fica a famosa escultura do artista Fernando Botero. Dali você segue para a Plaza Santa Tereza, onde há uma das entradas da cidade, sempre apreciando a arquitetura peculiar dessa joia do Caribe. Tudo pode ser feito em um dia, mas o ideal é dividi-lo pelo menos em dois. Afinal, são 35 pontos. O guia é em espanhol, claro e inteligível. As bicicletas são muito incentivadas na parte interna da cidade. Mesmo que você não tenha tanta prática, é muito seguro deslizar e parar a cada instante. Não tenha pressa, pois pedalando você conhecerá muito mais do que a pé e pode estacionar em vários lugares.

Fora da cidade amuralhada, a cidade continua plana e perfeita para a bicicleta! Pedalar entre os carros é mais tranquilo do que em muitas cidades brasileiras. Isso por causa das Zonas 30, onde carros precisam trafegar a velocidades menores. Mas nem tudo são flores. Cartagena ainda é bem carrocrata. A partir das 17 h, motoristas disputam espaço com os pedestres e o excesso de táxis nas ruas, enquanto buzinam a todo instante, chega a irritar quem procura paz e tranquilidade. Fora do centro histórico os pedestres não têm prioridade. Carros estacionam em calçadas e quase não existem semáforos. Ciclovias também são poucas. Mesmo assim, vale muito e você se arrependerá se não levar sua bici. À noite, vários bares e restaurantes são um convite a uma parada contemplativa enquanto você experimenta os excelentes cafés e drinques e escolhe sua agitação. A maioria dos turistas alugam bicicletas e precisam ficar rodando bastante para não perder tempo. Já quem leva sua bici pode “perder” o tempo que quiser e ficar despreocupado.

© Gil Sotero

Viagem

Saí de Belo Horizonte para São Paulo, de São Paulo para Bogotá e de lá para Cartagena. Não foi fácil para as bicicletas. A companhia aérea Avianca é bike friendly, mas não soube cuidar das magrelas. Apesar dos pequenos arranhões, as duas dobráveis chegaram intactas.

Hospedagem

Como era alta estação, em janeiro, a hospedagem estava pelas alturas. Mas encontramos um bom flat no bairro Boca Grande, que fica a 2 km da entrada da cidade antiga. Como o prédio era novo e tinha garagem 24 h, lugar para as bicis, água quente e piscina no último andar, valeu demais!

Dicas

1 – Se não levar sua bike é possível alugar. Há várias locadoras no centro histórico e até fora dele. O custo médio da diária pode variar ente R$ 25 a R$ 50. Prefira levar, se puder, assim você gastará com outras coisas.

2 – Estacionar a bicicleta não é problema, desde que tenha seu cadeado. Vários restaurantes e bares são amigáveis. No Hard Rock, por exemplo, pude entrar com a minha dobrável e deixei-a sem dobrar, estacionada na parte inferior do estabelecimento. Na verdade não tive problemas em nenhum lugar em que fui de bici.

3 – Prefira pedalar pela manhã na cidade. Antes das 9 h 30 min, o trânsito é tranquilo e quase não há carros. É lindo pedalar à noite, mais tarde. Porém, entre 17 h e 21 h a cidade lota de turistas, carros e buzinas. Com paciência se passa em todas as ruas e há aquelas que são mais tranquilas.

4 – O Código de Trânsito Colombiano obriga o uso do capacete. Mas quase ninguém (incluindo os cartageneiros) usa.

5 – Vá a todos os pontos turísticos. No Café Del Mar os preços são bem salgados para o espetáculo momentâneo que é o pôr-do-sol. Do lado dele você pode apreciar tudo sem precisar gastar rios de dinheiro.

6 – É possível ir ao Castelo de San Felipe de Barajas de bike.

7 – Praias: não há praias bonitas em Cartagena, mas você pode pegar um barco para Playa Blanca. Compre a passagem no Porto que fica em frente à Torre do Relógio, fora da cidade amuralhada. Você verá a aglomeração. Leve uma capa de chuva, o mar não é brincadeira, principalmente na volta, e não esqueça de tomar um remédio para enjoo antes de embarcar. Apesar de bonita, Playa Blanca é bem farofa. Os pacotes até incluem comida, mas lá não tem muita coisa. O mar é bonito, mas se você quiser mais estrutura passe o dia em Coco Liso. Atenção: se ir ao oceanário, irá perder precioso tempo da praia. Os barcos retornam às 15 h.

8 – O mais importante: você não precisa de roupas especiais para pedalar em Cartagena. Vá com seu estilo e se prepare para lindas paisagens e visões.

9 – Você quase pode gastar o quanto quiser para comer. Há restaurantes na parte amuralhada que servem menu do dia à população local e os mais requintados para turistas. Escolha aquele que mais te agradar, mas não esqueça de ir ao Restaurante Argentino Marzola.

Soluções elétricas para viagens de aventura

A mobilidade em nossos equipamentos essenciais tem sido cada vez mais trivial, entretanto, a cada novo equipamento que a tecnologia lhe oferece, você terá uma nova bateria com um novo carregador específico que terá que ser carregada em algum lugar.

GPS, SPOT, máquina fotográfica, filmadora, aparelhos para ouvir música, celular, leitor de eBook, tablet, laptop… e assim por diante. Uma excelente opção é resumir todos esses equipamentos em um único smartphone, ou coisa parecida.

Apesar do smartphone ser eficiente em suas funções, é bom lembrar que não terá a mesma performance que cada um desses equipamentos oferece de forma isolada. Mesmo assim, para quem deseja, por exemplo, produzir fotos ou vídeos um pouco melhores, poderá comprar acessórios como lentes e microfones que se adaptam ao seu aparelho. Outros podem preferir escrever de forma mais agradável utilizando teclados externos, ou ainda podem adquirir pequenas caixas de som para um áudio de qualidade e tantos outros acessórios que melhoram o desempenho do smartphone em alguma função específica que deseja.

Por outro lado, concentrando todas as suas necessidades em um único equipamento, se algo acontecer com ele todos os recursos e facilidades estarão perdidos. Isso sem falar no significante aumento em consumo de eletricidade que esse aparelho irá sofrer durante a viagem.

Com Eddy, o amigo belga em Ladakh. © Rafaela Asprino

É importante saber suas reais necessidades para não ficar sem carga no meio do caminho, dependendo da situação terá que economizar o uso de seus aparelhos. Se em seu roteiro pretende dormir em pousadas ou albergues, poderá carregar suas baterias durante a noite. Se utilizar um único aparelho para tudo é bom ter sempre uma ou duas baterias extras conforme a intensidade de uso, ou então, lançar mão de bancos de baterias, que nada mais são que bateiras maiores (ou um conjunto de baterias) que, uma vez carregadas, podem carregar baterias menores, geralmente através de uma saída USB.

Para quem deseja ter ainda mais autonomia, os dínamos modernos, instalados dentro do cubo da roda dianteira, têm uma eficiência incrível, e praticamente não pesam nas pedaladas. A saída é de 6 volts, 3 watts, mas através de um adaptador se converte em um carregador USB (5 volts com 500 mA).

Conhecemos um belga em Ladakh que utilizava seu smartphone para tudo e, através do dínamo, após algumas três ou quatro horas de pedal, o aparelho já acusava carga completa (de 40% chegava aos 100% de carga). Atualmente ele utiliza um sistema ainda mais elaborado que carrega uma bateria maior para depois, também através de uma saída USB, carregar seu aparelho. Com isso consegue uma saída mais potente (5 volts com 1.000 mA).

Levei uma grande placa solar para Ladakh, mas minha adaptação ficou muito delicada. Só podia abrir a placa na hora do almoço ou no acampamento. © Rafaela Asprino

A eletricidade é um bem cada vez mais acessível em todo o mundo. Sem ela o consumo, mola mestre do mercado de capital, fica muito limitado. São raros os locais do mundo onde não temos acesso à eletricidade.

Em nossas últimas viagens pedalamos por regiões com sérias restrições na oferta de eletricidade e apesar dos problemas que isso nos gera, ficamos felizes em conviver com pessoas pouco influenciadas pelos meios de comunicação de massa e, consequentemente, pelo consumismo.

Uma das vertentes de nosso projeto para divulgar o cicloturismo no Brasil são viagens de aventura. Enquanto em nossos guias oferecemos informações precisas, com duas casas depois da vírgula, para incentivar aventuras de bicicleta, editamos um documentário de cada viagem que fazemos com o fim de dar dicas, disseminar o conhecimento de locais pouco comuns para viajar e aguçar o interesse dos cicloturistas em viagens de aventura.

Não somos fortes, por isso temos que ser estritos em nossos equipamentos, mesmo assim, na última viagem levamos quase cinco quilos em equipamentos elétricos e eletrônicos para poder bem coletar as imagens dos documentários (quase o dobro do peso de nossa barraca).
As baterias de nossos equipamentos trabalham com 7,2 volts (quase um padrão entre as câmeras), isso é quase o dobro dos 3,7 volts da bateria de um smartphone. O dínamo não é uma solução para nós.

© Rafaela Asprino

No motor home a energia solar tem se mostrado a mais eficiente para nosso estilo de vida (econômico e independente) e decidimos utilizá-la em nossas viagens de bicicleta, pois, no geral, para carregar uma bateria, não é necessário uma fonte poderosa de eletricidade, e sim constância de fornecimento de eletricidade por longo período.

Em Ladakh, reaproveitei uma placa solar dobrável que utilizava no motor home (com saída de 12 volts, 12 watts, 1.000mA). Reconheço que meus trabalhos de “reaproveitamento” a deixaram bem compacta, mas ficou delicada demais para ser utilizada durante as pedaladas. Só podia abrir a placa quando parava para almoçar ou armar o acampamento.

Em nossa última viagem testei uma compacta placa solar dobrável de 500 gramas que produz até 7 watts. Apesar de menos poderosa, deu conta do recado, pois era compacta e resistente o bastante para ser carregada todo o tempo por cima da bagagem, com a vantagem de continuar sendo útil mesmo em caminhadas ou dias de descanso. Com a abundância de sol e economia no uso dos equipamentos, nunca ficamos sem eletricidade, pois conseguimos carregar até uma bateria e meia por dia. Se tivéssemos que viajar por lugares menos ensolarados como o Reino Unido, teríamos que utilizar placas maiores, pois sua eficiência cai muito em dias nublados.
A tecnologia sempre promete vantagens e vende o sonho de que a vida fica mais fácil com ela. Talvez sim, mas depende de como nos deixamos levar pelos avanços tecnológicos.

“Acho interessante observar que a tecnologia trouxe facilidades e conveniência, mas não conseguiu diminuir minha bagagem. Ao contrário, de certa forma, ela aumentou minha dependência de certas facilidades.”

Não é sem uma grande dose de saudosismo que me lembro das minhas necessidades e soluções elétricas quando fiz a volta ao mundo em 1993. Meu consumo de eletricidade se limitava a quatro equipamentos: câmera fotográfica, odômetro, walkman e uma lanterna.
A câmera era reflex, quase totalmente mecânica, tinha uma pilha pequena como a de um relógio para alimentar o fotômetro e durava por muito tempo, assim como a pilha do odômetro.
Nas noites solitárias, depois do jantar, me permitia gastar um pouco das pilhas do walkman ouvindo uma fita K7 inteira, de toda forma, sempre tinha comigo uma caneta tipo bic para poder rebobinar a fita sem gastar pilha (se você não compreende como uma caneta economiza pilha é porque você é muito novo, pergunte para alguém mais velho que ele te explica).

Apesar de “supermoderna”, com sistema de instalação na cabeça e tudo mais, ao invés de LED minha lanterna usava lâmpadas de filamento que consomem pilha como uma draga. Em países longe da linha do Equador, durante o inverno, eu entrava na barraca por volta das 17 h, quando o sol se punha, e só saía às 08 h do outro dia, após surgirem os primeiros raios de luz. Sem pilhas recarregáveis, lançava mão da luz charmosa, aconchegante e barata de uma vela de cera.

© Rafaela Asprino

Naquela época não precisava verificar ou responder e-mails, pois não havia internet. Se precisasse me comunicar tinha que pegar um papel e escrever uma carta. Em três anos e meio de viagem fiz somente 1.200 fotos, quantidade que podemos fazer em menos de uma semana nos dias de hoje.

Acho interessante observar que a tecnologia trouxe facilidades e conveniência, mas não conseguiu diminuir minha bagagem. Ao contrário, de certa forma, ela aumentou minha dependência de certas facilidades.

Para a maioria das pessoas, nossa lista de equipamentos eletrônicos é um exagero, mas temos um propósito para tudo isso. Veja a foto de nossas bicicletas saindo da estação Avaroa em direção ao Sul de Lipez. Estávamos carregando comida para dez dias e água para três, mesmo assim não parecem bicicletas exageradamente carregadas.

Numa aventura de bicicleta, buscamos justamente sair da zona de conforto. Aprendemos que as restrições nos deixam mais fortes, pois nos fazem ver que conseguimos sobreviver com pouco e quando voltamos para o motor home percebemos que nossa vida é abundante.
Às vezes, o melhor não é ter um equipamento a mais e sim aprender a viver sem a necessidade dele.

 

Bicicleta elétrica e cicloturismo: Isso combina?

O mestre Antonio Olinto conceitua cicloturismo da seguinte forma: “Cicloturismo nada mais é que fazer turismo utilizando como veículo a bicicleta ou viajar de bicicleta. Minha concepção de cicloturismo está profundamente ligada com minha experiência de vida e uma viagem de três anos e meio com bicicleta onde percorri 46.620 km em 34 países de quatro continentes”.

Ele ainda explica que uma característica básica do cicloturismo é percorrer longas distâncias, uma marca registrada do cicloturista é a carga na bicicleta, e há ainda uma mudança primordial na concepção do exercício físico, já que o cicloturista não procura recordes ou grandes velocidades, mas sim recreação e conhecimento.

Tomando por base as definições acima, seria possível incluirmos a bicicleta elétrica equiparada à bicicleta convencional, sem descaracterizar o conceito de cicloturismo?

Todo cicloturista que se preze vai afirmar que pedalar é uma fonte de grande prazer para ele. Mas nem todas as pessoas, em todos os lugares, são capazes de viajar com uma bicicleta, seja pela condição física ou até por fatores psicológicos, como o sentimento de incapacidade, seja por causas naturais, como muitos aclives ou ventos fortes.

Seria possível, com uma bicicleta elétrica, dar a oportunidade a essas pessoas de experimentar o cicloturismo?

A discussão, ao final, não é sobre substituir o ato de pedalar; é sobre fomentar a bicicleta e ampliar o alcance da experiência do cicloturismo.

Em agosto de 2013 (edição 31), publicamos como matéria de capa a viagem do pesquisador holandês Gijs Stevers, que percorreu 20 mil quilômetros do extremo norte europeu, em Cabo Norte, Noruega, até o extremo sul da África, em Cabo da Boa Esperança, com uma bicicleta elétrica. Sua jornada teve como propósito conhecer iniciativas em prol da energia renovável.

Perfeitamente em sintonia com este tema, Gijs afirmou à época: “eu sei que a bicicleta elétrica é menos sustentável do que uma bicicleta normal, e que eu não pude carregar sua bateria apenas usando energia renovável ao longo da viagem. No entanto, ela ainda é muito mais sustentável que qualquer outro meio de transporte. Poderia ter feito a viagem de moto, carro, transporte público, mas essas opções deixariam uma pegada maior no meio ambiente”.

Para ilustrar, ele afirmou que após a viagem instalou 16 painéis solares na casa de seus parentes e em duas semanas a instalação produziu a mesma quantidade de energia consumida pela e-bike nos 10 meses de viagem. Por contar com o auxílio elétrico, Gijs pôde transportar uma bagagem mais pesada, com cerca de 70 kg, um verdadeiro exagero para cicloturistas.

Na edição 55 dessa revista, Ruben Wanderley Filho, do grupo Os Dinossauros, contou que na travessia de 375 km que realizaram pelas Higlands Escocesas, alguns integrantes alugaram mountain bikes com assistência elétrica, as chamadas E-MTBs.

Ele conta que “as mountain bikes elétricas são hoje uma febre na Europa, principalmente para quem já atingiu uma certa idade, como é o caso da maioria do grupo que foi às Higlands, em torno dos 60 anos”. As bicicletas elétricas têm se tornando uma tendência, especialmente para casais e pessoas com diferentes idades, por possibilitar a equalização do ritmo da pedalada.

Segundo Ruben, é ilusão achar que a aventura perde importância por contar com o auxílio elétrico. Nas Higlands, por exemplo, o grupo de Ruben enfrentou muitas valas formadas pelo escoamento do degelo com pedras grandes e soltas, exigindo sempre aceleração extra para ultrapassá-las.

“O mais importante é curtir e se divertir nas trilhas”, afirma. Para ele, que estava fotografando a viagem, a E-MTB representou mais uma vantagem: já que o ninguém gosta de ficar parando para fotos, o auxílio elétrico permite uma retomada rápida para alcançar os demais.

Se você torceu o nariz tentando argumentar que bicicleta elétrica não é bicicleta, pense em como Melissa, Ruben, Gijs e tantos outros se sentiram ao viajar com suas bicicletas elétricas. Certamente, eles atraíram a curiosidade das pessoas, como é comum aos cicloturistas. Aproveitaram o caminho de uma forma que não seria possível como nenhum outro meio de transporte. Provaram da introspecção e do autoconhecimento que o cicloturismo oferece. E fizeram isso de uma maneira sustentável.

Alguns deles não teriam conseguido sem o auxílio elétrico, e essa característica inclusiva da e-bike é um complemento a este veículo mágico que se chama bicicleta.