Manutenção da Corrente

 

Uma abordagem sobre a importância de realizar periodicamente a manutenção da corrente da bicicleta.

As correntes são itens muito importantes na bicicleta, pois transmitem a força aplicada no pedivela para a roda traseira.

Há também relação direta com a segurança do ciclista, já que o rompimento repentino da corrente pode causar acidentes. Portanto, é fundamental manter sempre em dia este componente.

As correntes possuem modelos que acompanham os diferentes tipos de usos e de bicicletas. Com o acréscimo de cada vez mais pinhões ao cassete, com a finalidade de aumentar o número de combinações e possibilitar mudanças mais suaves, também há consequência na redução da espessura da corrente.

A conexão

A partir de cada fabricante, as correntes também possuem diferentes maneiras de fechamento que podem ser, por exemplo:

• Shimano, Pino Conector tipo ampola.
• Sram, Power Link (uma espécie de elo de emenda).
• Campagnolo, Ultra Link (muito semelhante ao sistema da Shimano com um pino conector).

Lembrando que dentre as marcas citadas, existem diferentes modelos para acompanhar a variedade de marchas e você deve empregar o pino ou a emenda correspondente ao número de marchas de sua corrente, além de nunca utilizar o método de fechamento de uma marca em outra.

Desgaste

Correntes sofrem desgastes e devem ser substituídas. Através de ferramenta de medição de desgaste é possível constatar o limite de uso e esse procedimento de checagem pode ser feito em boas lojas de bicicletas, onde normalmente não há custo.

Limpeza

Para a limpeza da corrente em casa, recomendo aqueles kits compostos de polias com cerdas numa caixinha de acrílico, que geralmente já acompanham o líquido desengraxante apropriado para a tarefa.

Lubrificação

Sempre deve ser feita com lubrificante apropriado para correntes de bicicletas, pois possui características específicas para evitar o acúmulo de sujeira na relação.

Pouco óleo! Aplique apenas uma gota por elo, assim você garante a lubrificação suficiente para sua corrente.

Lubrificantes

É indicado o uso de lubrificantes específicos para bicicletas, pois já possuem fórmulas exclusivas para as exigências dos mais diversos terrenos, como trilhas e estrada, além de variações de acordo com o clima: podem ser para tempo úmido (chuva) ou tempo seco (poeira).

O ideal é possuir ambos os tipos de lubrificantes, já que o clima pode mudar repentinamente e uma corrente lubrificada com óleo para tempo seco pode ficar sem lubrificação em uma chuva mais forte. Já a corrente lubrificada com óleo para clima úmido, se utilizada em uma superfície com poeira fina, poderá atrair e acumular esta poeira em uma espécie de pasta negra (composta de óleo, poeira e resíduos metálicos), altamente abrasiva e que eleva o desgaste prematuro do conjunto.

Evite abrir a corrente com frequência: a melhor maneira de limpar a corrente sem ter problemas de conexão é evitando a abertura frequente. Sempre que abri-la, feche-a com o pino ou emenda recomendada pelo fabricante.

Ainda falando de lubrificantes, não utilizar lubrificantes automotivos ou graxos, pois são altamente viscosos e atraem grande quantidade de sujeira para corrente. Entretanto, em casos extremos, onde a pedalada é longa e o ciclista for surpreendido por chuva forte, por exemplo, pode-se “apelar” para algum tipo de lubrificante, mesmo que seja óleo comum para motores, por exemplo! Mas lembre-se: somente em casos de emergências e essa lubrificação deve ser removida da corrente logo na primeira manutenção pós-chuva.

As transmissões de bicicletas com marchas por câmbio descarrilhador, cassete, coroas e corrente possuem uma dinâmica diferente de uma corrente para motocicletas, por exemplo. No primeiro tipo de transmissão, a corrente se move lateralmente e precisa passar por espaços limitados e o excesso de resíduos grudados na corrente poderá interferir na precisão das mudanças de marchas.

Por isso, quanto mais limpa e lubrificada, mais precisas podem ficar as mudanças de marchas.

Quanto lubrificar?

Esta é uma questão relativa, mas, de modo geral em tempo seco, deve-se lubrificar a cada 200 km para bikes de Estrada e antes de cada trilha para Mountain Bikes.

Já em tempo úmido ou chuvoso mantenha a corrente sempre lubrificada, porém, sem excessos. E então, é só manter as partes da relação em ordem e curtir as pedaladas!

O que é um Bike Fit de verdade?

Dentro do competitivo mercado globalizado, todos procuram uma maneira de se diferenciar, ou seja, oferecer um serviço que ninguém oferece ou oferecer um serviço com tamanha qualidade que nenhum outro concorrente consiga oferecer.

Nos últimos anos, com o aumento do poder aquisitivo, os brasileiros têm investido cada vez mais em qualidade de vida. As academias estão lotadas, os estúdios pilates conquistaram seu espaço, os parques e as ruas cheios de pessoas praticando “running”, e como não podia ser diferente, as bikes também tiveram seu “boom” de mercado.

O aumento do poder aquisitivo, juntamente com a busca de uma melhor qualidade de vida, fez com que as pessoas relembrassem do grande prazer que tinham em pedalar na infância, mas muitas vezes, limitados a bicicletas simples e sonhando com as grandes marcas/modelos do mercado. Agora com a vida financeira organizada e vendo o grande número de pessoas pedalando, essas mesmas pessoas voltam para realizar aquele velho sonho de ter uma “boa bike” e junto arrasta amigos e familiares.

Acontece que o mercado de hoje é muito diferente do mercado de 10 ou 20 anos atrás. As informações estão muito mais disponíveis aos consumidores, as pessoas leem e estudam mais, e priorizam bons produtos e serviços. Juntamente com isso, uma fatia do mercado vem se especializando cada vez mais para atender essa demanda, enquanto outra parcela permanece parada no tempo. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com “bike stores” ainda convivemos com “bicicletarias” que vivem há anos no mesmo padrão. Algumas até passam uma maquiagem, mas continua a mesma de sempre. No cenário descrito acima, os ciclistas descobriram que não basta investir nos melhores equipamentos. É preciso fazer a coisa de maneira correta, para se extrair o máximo da prática esportiva.

Foi aí, então, que o Bike Fit conquistou o seu espaço. Já conhecido há alguns anos na Europa e na América do Norte, ganhou maior visibilidade na era “Armstrong”. Certamente ele foi uma vitrine para o mundo em relação ao Bike Fit. Sempre preocupado com os mínimos detalhes para extrair os melhores resultados, evidenciou a sua preocupação com equipamentos, medidas e posicionamento.

No Brasil, essa ciência foi introduzida de forma lenta e desconfiada, no início visto como importante somente para atletas competidores à procura de tempos mais baixos. Outro ponto que vale ser mencionado é que naquela época existia um número menor de marcas e modelos e as geometrias não apresentavam a grande variedade que existe hoje. As bikes eram muito semelhantes. Os estudos para desenvolvimento de quadros eram muito limitados, e os ajustes eram empíricos, baseados em altura do ciclista e comprimento do entre pernas (cavalo).

Com o passar dos anos o número de bikes aumentou, as geometrias evoluíram e se tornaram específicas para cada propósito. Foi investido muito em estudos e pesquisas para melhoria de posicionamento, ganho de performance, conforto e prevenção de lesões, onde atualmente é possível avaliar um ciclista antes da compra e orientá-lo a adquirir a melhor configuração para seu biótipo/condicionamento físico. Aparelhos que avaliam os ciclistas em três planos (3D) fazem uma análise dinâmica enquanto é simulado um intervalo de pedalada. As grandes equipes ainda submetem esses ciclistas a testes em túnel de vento para aprimorar a performance.

Na última década, vários profissionais brasileiros da área da saúde se qualificaram para oferecer essa ciência àqueles que procuram por qualidade na pedalada. Pela escola que me formei, somos aproximadamente 35 profissionais em atividade. Somando as demais escolas de formação, acredito que o número total esteja por volta de 100 profissionais no Brasil.

Juntamente com esse crescimento do mercado é possível observar uma crescente procura por esses serviços, muitas vezes baseados apenas no lado comercial do Bike Fit.

Muitas pessoas vêm oferecendo esse serviço sem ter a mínima noção do que realmente é Bike Fit. Curiosos que se autodenominam autodidatas (Dr. Google) devoram posts em sites sem nenhuma relevância científica e saem por aí aplicando suas metodologias. A última moda tem sido os aplicativos para smartphones ou páginas da internet que oferecem o “Bike Fit Calculator”. Se já não bastasse a falta de coerência dos métodos, ainda temos alguns termos científicos que dificilmente alguém que não tenha cursado anatomia saberia identificar com precisão.

Dentro de uma sessão de Bike Fit um dos vários pontos importantes é a perfeita identificação e marcação dos pontos anatômicos com os sensores 3D.

Recordo-me que há seis anos, quando assessorado por um consultor na elaboração do plano de negócios da minha empresa, um dos pontos a ser levantado era a concorrência. E quando entramos em contato com os concorrentes e perguntávamos sobre a formação o que ouvíamos era: “fulano pedala há mais de 20 anos”, “ciclano foi campeão da prova não sei das quantas”, “beltrano é um dos melhores mecânicos da região”. Como se isso fosse condição “sine qua non” para trabalhar como Fitter. Concordo que não são indispensáveis, muito pelo contrário, conhecimento de mecânica e experiência com bikes é importante sim, mas o mais importante é ter formação e estudos para isso. O conhecimento é a base da pirâmide. Caso contrário, os melhores cardiologistas seriam os que já sofreram uma parada cardíaca (pobres proctologistas).

A próxima novidade será o que os lojistas vêm chamando de “a máquina de fazer Bike Fit”. Concordo que equipamentos são essenciais para a realização de um bom trabalho. Inclusive, valorizo muito e procuro sempre estar oferecendo o que há de melhor em equipamentos. Mas daí para ofertar um serviço onde a máquina é o realizador de Bike Fit, existe alguns anos luz de distância.

Caso contrário, os melhores cardiologistas seriam os que já sofreram uma parada cardíaca

Recentemente ouvi a seguinte expressão de uma das maiores autoridades em Bike Fit a nível mundial: “o melhor sistema de Bike Fit ainda são os neurônios”. Isso significa que mesmo tendo o melhor equipamento, se o material humano não possuir conhecimento para ler e interpretar as informações fornecidas pelo sistema, de nada vale o equipamento. Equipamentos transformam posicionamentos em números, que nos permite quantificar o quanto está bem ou mal posicionado e a partir daí os ajustes são realizados.

Como analogia para ajudar a compreender, podemos utilizar o alinhamento e balanceamento de rodas para carro. O equipamento é fantástico, mas se me colocar diante dele ou de seus resultados, não sei o que significa e nem o que fazer para corrigir o problema. Já nas mãos de um profissional capacitado, o alinhamento sai de maneira impecável.

Durante a anamnese, quando pergunto ao ciclista: “já realizou Bike Fit antes?”, não muito raro recebo a seguinte resposta: “já fiz com Fulano, um daqueles caseiros, mas nunca fiz um Bike Fit assim, de verdade”. De imediato me vem o pensamento. Mas se o Bike Fit não é de verdade, ele só pode ser o sou antônimo, ou seja, só pode ser de mentira. Percebido isso, dentro da minha curiosidade passei a perguntar: “mesmo sabendo que não é um Bike Fit de verdade, porque você fez?”, e na maioria das vezes ouço: “ah, porque entre esse Bike Fit e nada, é melhor fazer esse Bike Fit sem fundamento”.

Pois então, eu afirmo: nada é melhor do que esse caseiro, sim! Frequentemente recebo ciclistas que tiveram lesões devido ao mau posicionamento definido por pessoas que não sabem o que estão fazendo. Valorize seu corpo. Não o submeta às mãos de quem está interessado apenas no lado comercial do Bike Fit.

Com certeza você já deve ter ouvido alguém falar: “eu não acredito em Bike Fit”. Bike Fit não é benza, mandinga ou simpatia, algo que é necessário acreditar para ter efeito. O grande diferencial do Bike Fit é mensurar a qualidade do seu posicionamento e poder trabalhar esses números para a evolução da qualidade da pedalada do ciclista. É criar um projeto a curto, médio e longo prazo para esse ciclista. É criar seu histórico de posicionamento e geometrias, para poder acompanhá-lo ao longo dos anos. É encaminhá-lo a profissionais das mais diferentes áreas, para aprimorar necessidades físicas que atualmente limitam seu posicionamento.

Bike Fit não é método, fórmula, regra. É ciência que ajusta a bike ao corpo do ciclista e não o corpo do ciclista à bike

Tendo como base tudo isso, frequentemente sou questionado de como identificar um bom lugar para fazer Bike Fit. Verifique: qual a formação do profissional? Onde ele estudou Bike Fit? Seus diplomas em Bike Fit são emitidos por qual centro de formação? Esse centro de formação é relevante? Ele procura se atualizar com frequência? Onde são feitas essas atualizações? Quais são os equipamentos por ele usados? Qual metodologia ele emprega nos ajustes? Qual sua experiência com Bike Fit? As informações por ele fornecidas e perguntas respondidas são pautadas em artigos científicos ou apenas no senso comum?

Para ilustrar, dia desses recebi a ligação de um comerciante que vende o serviço de Bike Fit para seus clientes, querendo tirar uma dúvida.  Do outro lado da linha, ele questionou: “estou com um cliente aqui em cima da bike e detectei que ele tem uma perna maior que a outra. O que me aconselha fazer?” Perguntei: “como você sabe que uma é maior que a outra?” Ele respondeu: “olhando dá pra ver”. De cara já pensei: caramba, que olho é esse que mede com precisão o comprimento das pernas? Querendo ajudá-lo questionei: “mas essa diferença é tíbia ou fêmur?”. Fui surpreendido pela pergunta: “como assim?”, e percebendo que ele não sabia do que se tratava, dei sequência perguntando: “essa diferença de alcance que você percebe é estrutural ou funcional?”. Fui novamente surpreendido pela resposta: “como assim?” seguido da expressão: “vai com calma. O Bike Fit que faço aqui, não é um Bike Fit de verdade, é somente uma ajuda, uma orientação”.

É disso que venho falando acima. Não existe ajuda, orientação, meio Bike Fit ou Bike Fit mais ou menos. Ou você fez ou não fez Bike Fit. Não adianta se iludir, perder tempo e dinheiro. Na pior das hipóteses uma lesão provocada por um mau posicionamento vai lhe custar muito mais tempo e dinheiro para se reabilitar.

Digo e repito: Bike Fit não é método, fórmula, regra. É ciência que ajusta a bike ao corpo do ciclista e não o corpo do ciclista à bike. E o corpo é dinâmico, sofre alterações em relação à capacidade motora, flexibilidade, peso, condição física, distribuição antropométrica, sendo necessário acompanhamento e orientação profissional.

O Bike Fitter, sempre que vê alguém entrar pela porta do seu Estúdio Bike Fit, antes de enxergar o cliente e o ciclista, enxerga um ser humano que merece respeito e cuidados, e que confia sua saúde física nas mãos de um profissional.

Soluções elétricas para viagens de aventura

A mobilidade em nossos equipamentos essenciais tem sido cada vez mais trivial, entretanto, a cada novo equipamento que a tecnologia lhe oferece, você terá uma nova bateria com um novo carregador específico que terá que ser carregada em algum lugar.

GPS, SPOT, máquina fotográfica, filmadora, aparelhos para ouvir música, celular, leitor de eBook, tablet, laptop… e assim por diante. Uma excelente opção é resumir todos esses equipamentos em um único smartphone, ou coisa parecida.

Apesar do smartphone ser eficiente em suas funções, é bom lembrar que não terá a mesma performance que cada um desses equipamentos oferece de forma isolada. Mesmo assim, para quem deseja, por exemplo, produzir fotos ou vídeos um pouco melhores, poderá comprar acessórios como lentes e microfones que se adaptam ao seu aparelho. Outros podem preferir escrever de forma mais agradável utilizando teclados externos, ou ainda podem adquirir pequenas caixas de som para um áudio de qualidade e tantos outros acessórios que melhoram o desempenho do smartphone em alguma função específica que deseja.

Por outro lado, concentrando todas as suas necessidades em um único equipamento, se algo acontecer com ele todos os recursos e facilidades estarão perdidos. Isso sem falar no significante aumento em consumo de eletricidade que esse aparelho irá sofrer durante a viagem.

Com Eddy, o amigo belga em Ladakh. © Rafaela Asprino

É importante saber suas reais necessidades para não ficar sem carga no meio do caminho, dependendo da situação terá que economizar o uso de seus aparelhos. Se em seu roteiro pretende dormir em pousadas ou albergues, poderá carregar suas baterias durante a noite. Se utilizar um único aparelho para tudo é bom ter sempre uma ou duas baterias extras conforme a intensidade de uso, ou então, lançar mão de bancos de baterias, que nada mais são que bateiras maiores (ou um conjunto de baterias) que, uma vez carregadas, podem carregar baterias menores, geralmente através de uma saída USB.

Para quem deseja ter ainda mais autonomia, os dínamos modernos, instalados dentro do cubo da roda dianteira, têm uma eficiência incrível, e praticamente não pesam nas pedaladas. A saída é de 6 volts, 3 watts, mas através de um adaptador se converte em um carregador USB (5 volts com 500 mA).

Conhecemos um belga em Ladakh que utilizava seu smartphone para tudo e, através do dínamo, após algumas três ou quatro horas de pedal, o aparelho já acusava carga completa (de 40% chegava aos 100% de carga). Atualmente ele utiliza um sistema ainda mais elaborado que carrega uma bateria maior para depois, também através de uma saída USB, carregar seu aparelho. Com isso consegue uma saída mais potente (5 volts com 1.000 mA).

Levei uma grande placa solar para Ladakh, mas minha adaptação ficou muito delicada. Só podia abrir a placa na hora do almoço ou no acampamento. © Rafaela Asprino

A eletricidade é um bem cada vez mais acessível em todo o mundo. Sem ela o consumo, mola mestre do mercado de capital, fica muito limitado. São raros os locais do mundo onde não temos acesso à eletricidade.

Em nossas últimas viagens pedalamos por regiões com sérias restrições na oferta de eletricidade e apesar dos problemas que isso nos gera, ficamos felizes em conviver com pessoas pouco influenciadas pelos meios de comunicação de massa e, consequentemente, pelo consumismo.

Uma das vertentes de nosso projeto para divulgar o cicloturismo no Brasil são viagens de aventura. Enquanto em nossos guias oferecemos informações precisas, com duas casas depois da vírgula, para incentivar aventuras de bicicleta, editamos um documentário de cada viagem que fazemos com o fim de dar dicas, disseminar o conhecimento de locais pouco comuns para viajar e aguçar o interesse dos cicloturistas em viagens de aventura.

Não somos fortes, por isso temos que ser estritos em nossos equipamentos, mesmo assim, na última viagem levamos quase cinco quilos em equipamentos elétricos e eletrônicos para poder bem coletar as imagens dos documentários (quase o dobro do peso de nossa barraca).
As baterias de nossos equipamentos trabalham com 7,2 volts (quase um padrão entre as câmeras), isso é quase o dobro dos 3,7 volts da bateria de um smartphone. O dínamo não é uma solução para nós.

© Rafaela Asprino

No motor home a energia solar tem se mostrado a mais eficiente para nosso estilo de vida (econômico e independente) e decidimos utilizá-la em nossas viagens de bicicleta, pois, no geral, para carregar uma bateria, não é necessário uma fonte poderosa de eletricidade, e sim constância de fornecimento de eletricidade por longo período.

Em Ladakh, reaproveitei uma placa solar dobrável que utilizava no motor home (com saída de 12 volts, 12 watts, 1.000mA). Reconheço que meus trabalhos de “reaproveitamento” a deixaram bem compacta, mas ficou delicada demais para ser utilizada durante as pedaladas. Só podia abrir a placa quando parava para almoçar ou armar o acampamento.

Em nossa última viagem testei uma compacta placa solar dobrável de 500 gramas que produz até 7 watts. Apesar de menos poderosa, deu conta do recado, pois era compacta e resistente o bastante para ser carregada todo o tempo por cima da bagagem, com a vantagem de continuar sendo útil mesmo em caminhadas ou dias de descanso. Com a abundância de sol e economia no uso dos equipamentos, nunca ficamos sem eletricidade, pois conseguimos carregar até uma bateria e meia por dia. Se tivéssemos que viajar por lugares menos ensolarados como o Reino Unido, teríamos que utilizar placas maiores, pois sua eficiência cai muito em dias nublados.
A tecnologia sempre promete vantagens e vende o sonho de que a vida fica mais fácil com ela. Talvez sim, mas depende de como nos deixamos levar pelos avanços tecnológicos.

“Acho interessante observar que a tecnologia trouxe facilidades e conveniência, mas não conseguiu diminuir minha bagagem. Ao contrário, de certa forma, ela aumentou minha dependência de certas facilidades.”

Não é sem uma grande dose de saudosismo que me lembro das minhas necessidades e soluções elétricas quando fiz a volta ao mundo em 1993. Meu consumo de eletricidade se limitava a quatro equipamentos: câmera fotográfica, odômetro, walkman e uma lanterna.
A câmera era reflex, quase totalmente mecânica, tinha uma pilha pequena como a de um relógio para alimentar o fotômetro e durava por muito tempo, assim como a pilha do odômetro.
Nas noites solitárias, depois do jantar, me permitia gastar um pouco das pilhas do walkman ouvindo uma fita K7 inteira, de toda forma, sempre tinha comigo uma caneta tipo bic para poder rebobinar a fita sem gastar pilha (se você não compreende como uma caneta economiza pilha é porque você é muito novo, pergunte para alguém mais velho que ele te explica).

Apesar de “supermoderna”, com sistema de instalação na cabeça e tudo mais, ao invés de LED minha lanterna usava lâmpadas de filamento que consomem pilha como uma draga. Em países longe da linha do Equador, durante o inverno, eu entrava na barraca por volta das 17 h, quando o sol se punha, e só saía às 08 h do outro dia, após surgirem os primeiros raios de luz. Sem pilhas recarregáveis, lançava mão da luz charmosa, aconchegante e barata de uma vela de cera.

© Rafaela Asprino

Naquela época não precisava verificar ou responder e-mails, pois não havia internet. Se precisasse me comunicar tinha que pegar um papel e escrever uma carta. Em três anos e meio de viagem fiz somente 1.200 fotos, quantidade que podemos fazer em menos de uma semana nos dias de hoje.

Acho interessante observar que a tecnologia trouxe facilidades e conveniência, mas não conseguiu diminuir minha bagagem. Ao contrário, de certa forma, ela aumentou minha dependência de certas facilidades.

Para a maioria das pessoas, nossa lista de equipamentos eletrônicos é um exagero, mas temos um propósito para tudo isso. Veja a foto de nossas bicicletas saindo da estação Avaroa em direção ao Sul de Lipez. Estávamos carregando comida para dez dias e água para três, mesmo assim não parecem bicicletas exageradamente carregadas.

Numa aventura de bicicleta, buscamos justamente sair da zona de conforto. Aprendemos que as restrições nos deixam mais fortes, pois nos fazem ver que conseguimos sobreviver com pouco e quando voltamos para o motor home percebemos que nossa vida é abundante.
Às vezes, o melhor não é ter um equipamento a mais e sim aprender a viver sem a necessidade dele.