Bicicleta Rivera

Por
 Valter F. Bustos 

Nesta edição, gostaria de partir para um lado mais humano, tratar da nossa relação afetiva com as bicicletas. Queiramos ou não, elas existem em maior ou menor intensidade, conforme a utilização que damos às nossas magrelas. Cada bicicleta que faz parte do acervo do Museu da Bicicleta tem sua história particular, desde o primeiro contato com ela até a sua posse efetiva. Entre o primeiro contato e a posse, está o melhor dessa conquista. Sobre esse “lapso ou meio”, onde sentimentos, angústias, e satisfações ocorrem, falaremos daqui em diante.

Essa bicicleta Rivera, modelo masculino, ano 1956, possui dois momentos quase poéticos de sua chegada até nós. Era o ano de 1987 e, nessa ocasião, eu vivia em São Paulo. Profissionalmente, eu trabalhava como monitor de museus, no Museu da Casa Brasileira, localizado na Avenida Faria Lima. Certo dia apareceu por lá à minha procura, um sujeito montado numa bicicleta esquisita, segundo me informara uma colega de trabalho. Eu fazia uma monitoria para um grupo de estudantes, e, assim que terminei meu trabalho, fui ao encontro dessa pessoa. Caminhei rapidamente para o pátio interno onde a pessoa estava, com o meu olhar focado na bicicleta. Quando vi o seu estado geral de conservação e elegância do modelo, bateu a tradicional gastura no estômago.

Trocados os cumprimentos de praxe, rapidamente procurei saber qual a sua pretensão com a bicicleta, pois uma nova turma de estudantes era aguardada. Sua história era outra viagem, e dela faço um resumo: ele tinha uma barraca de feira montada sobre uma bicicleta cargueira, onde vendia pastéis. No bagageiro frontal, um marceneiro construiu uma mesa com três gavetas de cada lado. Nessas gavetas ele levava os pastéis montados e prontos para serem fritos. O meio do quadro foi cortado, e ali soldado o círculo da Monark Barra Circular, onde ficava preso um “liquinho” de 2 kg. O bagageiro traseiro foi ampliado e, segundo ele, havia um pequeno excesso nas laterais devido à construção de dois compartimentos onde transportava seus utensílios: frigideira, óleo, pegadores, temperos, massa etc. Ele também transportava um guarda- sol, que era aberto e preso ao guidão. Eu vi uma foto e a coisa toda era bem bolada. Ele me disse que certo dia um sujeito apareceu na feira, querendo comprar de todo jeito a sua “bike- pastelaria”. Ele comentou que não estava com a intenção de vender e mandou uma proposta estratosférica para se livrar do possível comprador. Acontece que o cara topou e ele teve que entregar. Acho que não deveria ser pouca a soma envolvida, pois ele foi viajar e rever amigos, tomou muita cerveja e namorou bastante. Resultado: ficou quebrado e queria reconstruir sua bicicleta ganha-pão.

“Quanto você quer pela bicicleta?”, perguntei.

“Eu não quero dinheiro. O senhor me dá uma bicicleta cargueira boa, e fica com ela”, ele respondeu.

A gastura aumentou rapidamente e comecei a raciocinar rápido, porque o negócio tinha que ser fechado ali mesmo e sem demora.

“Você pode esperar aqui uns trinta minutos?”

“Posso sim!”

© Valter F. Bustos

“É que vou até Pinheiros comprar a bicicleta, mas quero uma garantia de que você não vai embora”, falei. Ele colocou a mão no bolso da jaqueta e retirou um papel todo dobrado e me entregou. Era a nota fiscal de compra da bicicleta, adquirida no “Mappin Stores” da Rua Xavier de Toledo, em São Paulo, e retirada dias depois no depósito, que, anos mais tarde e até o seu fechamento, foi transformado no “Mappin Itaim”, a maior loja da rede. Confesso que minhas mãos tremeram e fiquei meio sem voz por alguns instantes. Peguei minha Caloi SS-3 e voei até a Rua Theodoro Sampaio onde adquiri a cargueira para esse anônimo, cuja história era verdadeira e muito curiosa. Ele pegou a bicicleta, nos despedimos, e nunca mais o vi.

Certo dia, de que não me recordo a data agora, em 2010, pouco antes do fechamento do Museu da Bicicleta, notei um senhor emocionado bem em frente à Rivera. Notei certos toques bem suaves e delicados sobre o quadro, guidão e garfo da bicicleta. Ao me aproximar ouvi quase em um tom de murmúrio a seguinte frase: “Eu montei essa bicicleta”. Apresentei-me e iniciei uma conversa com aquele senhor de cabelos brancos e gestos calmos.

Fiquei sabendo que ele trabalhara na Rivera S/A Comércio e Indústria, como Aprendiz de Montagem. Seu nome, Denis Lopes Pinheiro. A Rivera foi o seu primeiro emprego com registro em carteira, aos 16 anos de idade. Aproveitei a raríssima oportunidade – imagino que poucos museus pelo país, vivenciaram uma situação tão peculiar como esta – e obtive todas as informações possíveis sobre a fábrica, que, apesar da excelência de seus produtos, teve uma vida curta no mercado de bicicletas em sua época. Muito gentil e bom de conversa, pouco antes de sair, o Sr. Denis me disse que faltava alguma coisa para comprovar o que ele havia relatado, coisa que, em nenhum momento eu duvidara. As informações que eu tinha sobre a fábrica provinham de anotações que eu havia obtido através de entrevistas com pessoas e em antigas bicicletarias de São Paulo, junto aos seus profissionais. Devido ao fator custos, a produção de folhetos e catálogos de produtos desses pequenos fabricantes não existe e é muito raro. Isso só viria a mudar no final dos anos 50 e começo da década de 60. Transcorridos dois dias, Denis retornou ao MuBi e nos forneceu uma cópia de sua Carteira Profissional onde consta o registro. Uma gentileza e deferência ao nosso trabalho que não tem preço.

Esta é uma das muitas histórias de velhas e antigas bicicletas que hoje são nossas raridades.

© Valter F. Bustos

Ficha Técnica

Bicicleta Rivera, modelo masculino, aro 28, ano 1956, equipada com suspensão de molas, fixas em cilindros, com regulagem na cabeça de parafuso de tensão, nas rodas dianteira e traseira. Sistema de freios do tipo side-pull, acionados através de cabos. Movimento central de 34,7 m/m, e engrenagem dianteira fixada através de chavetas. Procedência: Brasil. Condição: original/reformada. Acervo: MuBi.

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