Um quarentão chamado Mountain Bike

Quarenta anos de MTB – Experiência para além das rodas

O que dizer da longevidade de um estilo de pedalar que alcança algumas centenas de milhares de praticantes no país, seja no tocante a competições, seja em estilo de vida? O que está por trás deste encantamento que mantém fiéis seguidores faça chuva, sol, calor, frio, neve, pela montanha acima ou pelos litorais, nas cidades e fora delas, no asfalto quente ou no lamaçal imperdoável? Por que motivos esta modalidade de ciclismo mobiliza tão fortemente o mercado de bicicletas e acessórios, obtendo novos adictos a cada dia, sejam eles adolescentes em busca de emoção ou experientes senhoras e senhores que se declaram apaixonados pelo MTB cada dia mais? As respostas estão por trilhas, estradões, parques nacionais e estaduais, reservas, praias, montes e no cotidiano dos grupos de bicicleta pelo Brasil adentro. Mas, pensando nisto, fomos buscar alguns fragmentos do que sentem e pensam estes novos homens e mulheres acima dos quarenta anos, completamente enlouquecidos pelo Mountain Bike!

Foi na edição 42, de julho de 2014, que a nossa matéria de capa Mountain Bike – uma paixão universal incontestável trouxe à tona algo que sonhávamos publicar há algum tempo: a atração quase indescritível que os brasileiros têm pelo MTB.

Resolvemos, então, um ano depois, dado o aumento significativo de nosso relacionamento com grupos de ciclistas por todo o território nacional, trazer às nossas páginas as sensações de mountain bikers que diariamente redescobrem-se pilotando suas MTBs pelos recônditos municipais e regionais. A MTB está de aniversário e era justo prestar esta homenagem. Fizemos um breve contato pelas redes sociais e fomos prontamente atendidos. Apaixonados pelo MTB e pela MTB, amplamente. Por isto, desde já, nosso agradecimento aos amigos e amigas que se mobilizaram e enviaram seus depoimentos para ilustrar esta matéria. (Obs: alguns depoimentos tiveram alteração no tamanho para melhor conformar-se à matéria).

Diz o ditado que a vida começa aos quarenta, portanto, não temos a intenção de contrariar tal sabedoria popular. Mas, vale acrescentar que a opção por um estilo de vida dinâmico, irrigada por novas sensações diante do incomensurável desafio de estar vivo, em um esporte que é a própria interpretação dos altos e baixos cotidianos, merece uma atenção toda especial. Se é jovem um indivíduo aos quarenta, um de oitenta, praticante de ciclismo, e neste caso, de MTB, é duas vezes jovem.

É fato que uma parte significativa dos praticantes de MTB pelo país são egressos do bicicross e de outras modalidades. A maior parte deles sempre se manteve próxima da atividade ciclística. Porém, começamos nossa transcrição evidenciando que outro número gigantesco de praticantes de MTB recomeçou a pedalar após completar quarenta anos. Bem nos lembra nosso querido amigo Rafael Batista Zortea (40 anos), de Porto Alegre, com quem pedalamos pelo Circuito Vale Europeu Catarinense de Cicloturismo, experimentado cicloturista e em grande forma por se tratar de um atleta nato dedicado aos desafios de montanha.

© Anthony Smith / Trek Divulgação

Motivado por descobrir e reencontrar lugares de plena natureza para a prática do esporte, Rafael diz: “muitos de meus companheiros de bicicleta recomeçaram ou até mesmo aprenderam a pedalar após completarem 40 anos! Nossa rotina se resume a saídas nos finais de semana à procura das trilhas e estradas rurais que ficam cerca de 20 a 30 km distantes do centro de Porto Alegre. Como já estamos a alguns anos nessas trilhas e estradas, então, nossa busca já tem seus locais definidos. A ideia principal é poder ‘fugir’ dos carros e se aproximar mais da natureza, chegando a locais muitas vezes inalcançáveis para um automóvel. Os locais preferidos? É claro que são os morros, que apesar de exigirem um bom condicionamento, acabam te premiando com vistas espetaculares, as quais curtimos enquanto descansamos para poder encarar a próxima subida!”.

O MTB oportuniza que estejamos a todo instante buscando superar a nós mesmos. Muitas vezes, o indicador da superação vem em forma de prêmio. É o caso do velho amigo de pedaladas, atleta e empresário do ramo de bicicletas, o Ronaldo Probike, de Uberaba – MG, hoje com 45 anos, que respondeu da seguinte forma quando pedimos um depoimento de como ele se sentia praticando o MTB. Ao invés de escrever o seu testemunho, Ronaldo enviou uma foto da premiação de quinto lugar Solo Master no Brasil Ride 24h. Precisa dizer mais?

Tamanha versatilidade do modelo mountain bike lhe confere uma aceitação universal, porque não dizer. Confirmando o que expomos, Miriam Costi Ribeiro, 50 anos, de Florianópolis – SC, afirma: “sou uma cinquentona que usa a Mountain Bike como meio de transporte, passeio, viagem, cicloturismo, mobilidade urbana e cicloativismo”!

E já que se ampliam os horizontes de uso por conta da capacidade de interpretar terrenos e superar obstáculos, a MTB tem se convertido na grande possibilidade de transcender realidades, quando ela empresta aos ciclistas a oportunidade de reinventar-se. O experiente mountain biker Alexandre Barreto, que vive em Timbó – SC, berço do Circuito Vale Europeu Catarinense de Cicloturismo, amigo com quem pedalamos quando lá vivíamos, tem uma interessante observação da vida cotidiana a respeito do MTB. Diz ele que “o MTB é para mim como uma máquina do tempo. Eu saio de casa com 40 e volto com 18, ou poderíamos chamar de máquina da juventude?!”

Bebe da mesma fonte da juventude o querido Anastácio Lourenço – 62 anos – de Manaus, que ressalta: “tenho 62, mas estou no meio dos de 18”, querendo dizer que rejuvenescer com a mountain bike também permite criar experiências em meio aos mais jovens.

O que está por trás deste encantamento que mantém fiéis seguidores faça chuva, sol, calor, frio, neve, pela montanha acima ou pelos litorais, nas cidades e fora delas, no asfalto quente ou no lamaçal imperdoável?

Os ciclistas que compartilharam sua história nesta matéria, Da esquerda para a direita, de cima para baixo:
O casal Alcione e Valmir, Alexandre Barreto, Alexandre Favero, André Bergmann, Therbio Felipe e Arestides Porangaba, Carlos Morales, Cláudia Valente de Oliveira, Daniel Dias Auer, Eugenia Souza, Gary Castro, José Targino Bonifácio, Junior Juninho, Lorena Preuss de Araújo, Marines Ronchi, Miriam Costi Ribeiro, Paulo Aguiar, Rafael Batista Zortea, Renato Amorim, Roberto Ambrósio, Ronaldo Probike, Alexandre Szmiudziuk Gallego, Sérgio Novis, Simone Russo, Telmo Coelho, Therbio Felipe, Vilmar João Mengarda e Wilder De Leon Corbo.

O convívio com as diferenças está presente na história de amor com a bicicleta, como sugere Eugenia Souza, 59 anos, de Itararé – SP:

“Aprendi a pedalar em uma bike emprestada. Devia ter meus oito anos e nunca mais esqueci o prazer que isto gerava. Mas o tempo passou e por diversos motivos nunca havia tido uma bike só minha. Um belo dia, aos 55 anos, pensando nos sonhos de que tinha desistido, me perguntei: o que te impede de realizar este? Uma alegria imensa me levou até uma loja onde comprei minha primeira MTB. Daí, comecei a pesquisar para descobrir com quem pedalar, apesar de já estar pedalando sozinha. O encontro com o grupo só fez aumentar minha paixão pelo mountain bike. Foi meio difícil convencer meu marido a nos acompanhar, mas agora ele é tão fanático como eu. Acabamos de fazer nossa segunda cicloviagem usando MTBs e já estamos pensando na próxima. Ele tem 63 e eu completo 60 em junho, mas nunca nos sentimos tão jovens e saudáveis como agora”.

Remoçar, rejuvenescer, reinventar-se… Mais do que um sonho perseguido pela humanidade é uma realidade para os praticantes de MTB, dada a geração de bem-estar e saúde mental e física, que juntos elevam em patamares visíveis a qualidade de vida deste grupo. Temos alguns exemplos a respeito deste pormenor.

É o caso de nossa amiga Marines Ronchi, de 50 anos, de Jaraguá do Sul – SC: “aos 40 anos de idade me reinventei como pessoa quando tive contato com uma mountain bike! De lá para cá, minha vida mudou. Hoje, aos 50 anos, coleciono milhares de quilômetros rodados, diversas viagens nacionais e internacionais de bike, promovi dezenas de eventos que já reuniram milhares de ciclistas, recebi título de embaixadora de uma grande marca de bikes, bem como título de embaixadora da maior fabricantes de roupas para ciclistas do país. Além disso, ganhei centenas de novos amigos e conhecidos, saúde, bem-estar e realização pessoal! Reinvente-se você também! A vida sempre vale a pena, não importa quando você queira começar, apenas tente!”

Talvez, para muito além da atividade esportiva, o MTB também contribui para a garantia da transformação nos espaços onde ocorra. O engajamento social positivo, a mobilização responsável de grupos e o testemunho dado por mountain bikers em todo o território nacional, dá mostras que o esporte transcende as trilhas e se declara como um instrumento de interação humana. O engenheiro paraense Paulo Aguiar, 47 anos, que vive em Manaus onde coordena o engajado grupo Pedala Manaus, traz esta percepção: “apesar de um grave acidente durante uma trilha em 2012, que me rendeu uma série de pinos de titânio na coluna e em algumas vértebras, o MTB continua fazendo parte da minha vida, seja como esporte ou como ferramenta de inclusão social. Pratico o MTB desde 1992 e de lá para cá o esporte funciona como meio de exercer a cidadania, de melhorar a autoestima e de viver em contato com a natureza. Como membro do Pedala Manaus, suporto a realização de trilhas para iniciantes, além de ministrar uma escolinha de MTB, para promover cada vez mais o esporte e conscientização das pessoas em relação a preservação das matas e o uso de um meio de transporte sustentável e econômico. O MTB, além de divertido, nos traz uma sensação de liberdade tremenda, além de celebrar amizades e se praticar o companheirismo a todo o momento. E isto te torna uma pessoa melhor a cada trilha e a cada nova experiência”.

Quando falamos de testemunho queremos admitir que, com grande possibilidade, esta é a modalidade de ciclismo mais percebida pela comunidade, tamanha difusão alcançada também nas ruas de um país continental. É o modelo que mais se vê por todos os lados, a qualquer hora. Notável presença na vida de quem nem mesmo se deu conta disto.

© Sterling Lorence Photography / Specialized Divulgação

O querido Roberto Ambrósio, de Araraquara – SP, tem 54 anos e um testemunho super bacana. Ao escolher pela mountain bike, ele inspirou várias pessoas do seu círculo pessoal, inclusive seu filho, o admirável cicloturista e fotógrafo Beto Ambrósio Filho, cicloviajante que segue pela América do Sul de mountain bike há mais de dois anos e meio. “Já sabia andar de bicicleta, mas comecei realmente a pedalar somente aos 30 anos de idade quando um amigo me disse que gostaria de fazer uma viagem de bike do Guarujá a Paraty. Até aí, não tinha nem bicicleta, mas falei que iria com ele. Essa conversa aconteceu em um bar quando a gente já tinha tomado algumas cervejas. Falei que iria começar a treinar se ele me emprestasse uma bicicleta. Ele tinha várias. No dia seguinte, no final de tarde, lá estava eu esperando ele sair do trabalho para começar nosso treino. Ele não acreditava, pois achava que aquela conversa terminaria assim que o efeito da cerveja acabasse. Foram dois meses de preparo (condicionamento). Fizemos a viagem e nunca mais parei. Depois, fizemos algumas um pouco mais longas. Hoje, o MTB faz parte da minha vida. Acho que se não fosse esse amigo, meu filho (Beto Ambrósio Filho) não estaria fazendo agora uma viagem de bike pela América Latina, porque se eu fui a inspiração dele, meu amigo (Marinho) foi a minha inspiração para essa coisa viciante que é a bicicleta”, disse Roberto.

As respostas estão por trilhas , estradões, parques nacionais e estaduais, reservas, praias, montes e no cotidiano dos grupos de bicicleta pelo Brasil adentro.

Lorena Preuss de Araújo, de Porto Alegre, destaca o quanto encarar os desafios impostos pela vida, inclusive as perdas, foram melhor aceitos ao iniciar a prática de MTB. Ela comenta que entende a vida como um livro e que depois de ter descoberto o MTB está escrevendo o seu segundo capítulo, onde ser feliz é a prioridade: “jamais imaginei que poderia, a partir dos 40, entrar em um esporte e me apaixonar a ponto de fazer da bike um modo de vida. Hoje, eu diria, que pertenço a uma tribo. A mountain bike é isso, nos renova, fazemos amizades, nos tornamos mais tolerantes. Enfim, a bicicleta me trouxe de volta à vida, uma alegria. Nunca se está só quando se está pedalando. Sinto-me sem limites! E, se tenho limites, os encaro como desafio e os supero com a bike. Realizei meu primeiro Audax BRM 200 km, usando uma MTB. Ali, por várias vezes, eu pensava em desistir, mas surgiam amigos, novos rostos, enfim, que me empurravam com confiança de que eu conseguiria… E consegui! Isso a bike ensina, darmos as mãos e vencer juntos os limites, limites do corpo, da mente. Até o cansaço é gratificante! Quando iniciei as pedaladas jamais pensei que chegaria a andar tanto, planejar viagens, treinos, enfim. Havia perdido minha mãe, minha família, e fiquei sem referência. Um dia sem nada, peguei uma bicicletinha na época e sai a pedalar. Nunca mais parei (risos). Hoje, tenho uma MTB, uma estradeira”.

Da mesma maneira como Lorena, muitos ciclistas passam a lidar melhor com certos obstáculos da vida por conta que o esporte que escolheram é assim 100% do tempo. Parece que a vida se transfigura representada pelos caminhos que trilhamos, desculpe o trocadilho.

Modo de vida é a expressão usada por Lorena e que encontra eco entre outros ciclistas. Note-se bem o que diz o José Targino Bonifácio, de Americana – SP. Com 40 anos, José tem descoberto novos cenários e diz que “pedalo desde meus 14 anos, mas de MTB comecei há 9 anos atrás, quando tinha 31. No começo, foi para poder praticar algum esporte. Hoje, porém, o MTB é tudo na minha vida. Minha experiência como ciclista de MTB foi ampliada também em várias viagens, porque como digo sempre aos meus amigos, não gosto de repetir os lugares e estou sempre pronto a um desafio diferente.”

© Daniel Geiger / Specialized Divulgação

Lá de Santo André – SP, o Junior Juninho, 40 anos, revela que a mudança no cenário da cidade fez desaparecer os terrenos baldios e as ruas de terra, favorecendo a busca por outro modelo de bicicleta que contemplasse todas as possibilidade de pedalar: “quando comecei a pedalar, naquela época, surgiu um impasse. Ocorre que vários lugares que dispunham de pistas de cross no entorno de São Paulo e Grande São Paulo deixaram de existir. Então, veio a profunda vontade de ter um novo modelo de bicicleta. Mais que depressa arrumei um jeito de comprar uma Caloi Cruiser Light e daí por diante não parei mais”.

E o que resulta da experiência de visitar e revisitar lugares, expor-se aos limites do corpo, criar hábitos saudáveis, entre tantos outros fatores? Qualidade de vida é a resposta! Durante o III Fórum de Bicicletas de Manaus, promovido e organizado pelo competente grupo do Pedala Manaus, conhecemos o Carlos Morales, de 47 anos, que também recomeçou a pedalar há pouco, mas já está recolhendo os frutos do empenho e da escolha fantástica pelo MTB.

“Retornei a pedalar há quase dois anos, quando estava com 134 kg e, de lá para cá, perdi 20 kg em seis meses, transformando minha vida, pois não era mais ativo, estava sofrendo de problemas estomacais e intestinais que me tiravam toda a disposição. Após iniciar as pedaladas ganhei uma nova condição de vida, graças a minha eterna MTB, companheira que já tinha há mais de 20 anos. Dei uma geral nela, mas nunca tive coragem de me desfazer. Nosso amor é eterno, ainda não a troquei. E olha que já tive muita oportunidade, mas fico postergando, pois ela me trouxe à vida e não tenho coragem de aposentá-la”.

Superação é um conceito bastante próprio do ciclismo como um todo, e em particular, do MTB.

De sul a norte, a sensação de reinterpretação da própria vida repercutindo em qualidade de vida e saúde é percebida. A satisfação com o que se realiza é um dos componentes da felicidade e, sem qualquer risco de estarmos superestimando o MTB, felicidade é uma das formas de resumi-lo. O Vilmar João Mengarda, de 59 anos, da linda Rio dos Cedros – SC, está pedalando há dez anos. Diz ele que “foi por consequência de haver descoberto o diabetes que comecei a pedalar, portanto me trouxe um enorme conforto físico e emocional. Apesar da idade, tenho tido bons resultados e metas que atingem 250 km semanais. Fico feliz com isso! Determinação e conquista são os meus objetivos, com ou sem companhia. Adoro as montanhas e sou feliz no que faço”.

E quando esta tal felicidade, como diria Tim Maia, atinge as pessoas que mais se ama ou aquelas próximas do círculo pessoal de relacionamentos, eleva-se exponencialmente o bem-estar da experiência do MTB. Nosso amigo Sérgio Alexandre Szmiudziuk Gallego, de Curitiba, com quem pedalamos em 2012, no Dia Mundial Sem Carro, teve um grave problema cardíaco anos atrás, o que o motivou a ter um tempo e um modo especial para curtir a filha adolescente. Aos poucos, Sérgio começou a descobrir novos caminhos para ser feliz, ganhou saúde e a companhia da filha nas pedaladas.

Sérgio diz que “precisava fazer uma troca de válvula (coração) em julho de 2014. Fiz todos os exames e a surpresa foi que não precisava mais fazer o transplante, pois minha saúde estava excelente graças ao mountain bike, que é meu porto seguro. Continuo pedalando junto com a Jéssica (filha) e outros grupos de ciclismo, com os quais faço em média 250 km até 300 km por semana, acho que isto ajuda (risos)!”

O Telmo Coelho, 52 anos, meu conterrâneo lá de Pelotas – RS, também teve orientação médica dirigida ao MTB, o que o fez ter que optar entre o antigo esporte e a nova paixão: “tenho 52 anos e há três anos voltei a pedalar após uns 35 anos sem fazê-lo. Foi por indicação médica, pois sempre joguei futebol e participei de vários campeonatos. Estou com desgaste na cartilagem acima do fêmur, doei todo meu material esportivo de futebol e investi no MTB, porque em tudo na vida temos um ciclo e o meu, para o futebol, acabou há três anos. Diante disso, emagreci 12 kg, ou seja, todos aqueles que pedalam deixam o sedentarismo e se tornam mais felizes, o trânsito melhora, diminui-se a concentração de carros, menos barulho, menos poluição”.

Lá de Manaus, a Cláudia Valente de Oliveira, 47 anos, passou pelo mesmo processo. Por recomendações médicas, encontrou no MTB a resposta para sua necessidade de qualidade de vida: “comecei a usar a bicicleta em 2011, para me exercitar, por necessidade (para tentar amenizar um problema de saúde – hérnia de disco na lombar – tomava medicação diariamente). Em pouco tempo, pedalar deixou de ser um exercício e passou a ser um enorme prazer. A bicicleta ocupou a minha vida de uma forma maravilhosa. Hoje, passo longe das farmácias e utilizo minha MTB para quase tudo: ir ao trabalho, fazer compras nas proximidades de casa, sair a divertir-me na companhia dos amigos, realizo viagens cicloturísticas pelo interior do estado e muitas trilhas. É um caso de amor para a eternidade”.

E de volta ao interior de Santa Catarina, o André Bergmann, de 40 anos, natural de Porto Alegre – RS, porém vivendo em Criciúma – SC há alguns anos, enviou seu depoimento dizendo o seguinte: “tenho uma deficiência física no braço esquerdo, uma lesão do plexo braquial, devido a um acidente de carro no ano de 1996. Porém, nunca deixei de lutar, correr atrás de meus sonhos. Faz três anos que eu comecei a pedalar. Minha vida mudou completamente para melhor! Melhorei meu físico, superei meus medos e os obstáculos, venci desafios, além de também colaborar com a natureza. Fiz muitos amigos e descobri que uma atividade física pode se tornar um hobby delicioso! Junto com grandes amigos que surgiram durante as inesquecíveis pedaladas, comemorei conquistas, venci desafios, superei meus limites e apreciei lindas paisagens. Pedalar melhora o fôlego, alivia o estresse e deixa a gente feliz e de bem com a vida. Quem pedala mantém o organismo ativo e não deixa que vários mecanismos enferrujem. Você fica resistente a várias doenças, como a osteoporose e problemas cardíacos. Enfim, sou apaixonado por Mountain Bike!”

Parece que superação é um conceito bastante próprio do ciclismo como um todo, e em particular, do MTB, porque além dos morros, areais, lamaçais, obstáculos, rios, entre outros, há uma constante que define o cumprimento do caminho ou não.

Superar um problema pessoal, uma depressão, um acidente, uma perda familiar ou de um amigo. Lá vai, novamente, o MTB dar sinais de repercutir tão fortemente no ciclista que até a pior das dores encontra resposta.

© Marcel Pabst / Thule Divulgação

Daniel Dias Auer (O ciclista sem Mãos), tem 40 anos e uma incrível história de vida, já publicada em nossa revista. Daniel tem conseguido dar um testemunho maravilhoso de sua vida sobre rodas, tocando e transformando gente por onde passa, usando a MTB também para cicloturismo:
“após comprar minha bicicleta e aprender a me virar, em 2007, realizei um grande sonho: fazer uma viagem de 350 km de bicicleta, saindo de Ponta Grossa – PR com destino a Itajaí – SC. A viagem durou cinco dias, passando por Curitiba e Campo Largo, no Paraná, e Joinville e Barra Velha, em Santa Catarina. Quando cheguei em Itajaí fui recebido pelo prefeito e a banda da cidade. Realizei uma palestra para centenas de pessoas que ali estavam aguardando minha chegada e até ganhei uma bike de presente do prefeito. Essa viagem foi de grande importância, pois consegui transmitir uma energia boa por onde passava. As pessoas queriam me conhecer e tirar fotos quando eu chegava nos restaurantes, postos e lanchonetes. Elas queriam ver a adaptação que fiz na bicicleta e tinha até quem pedia para dar uma volta nela. Os jornais locais também publicaram sobre a viagem. Consegui transformar olhares de compaixão em olhares de admiração”.

Falando em superação e testemunho, pedi ao meu grande amigo Gary Castro, dos Katingudos MTB lá de Uberaba-MG, que enviasse seu depoimento. E o que ganhei foi mais do que esperava: “meu esporte sempre foi o futebol, joguei em todas as categorias de base até chegar perto de ser profissional como goleiro, mas percebi que me machucava muito. Um dia, um amigo que hoje mora no céu, Rubem (faleceu pedalando, fazendo o que mais gostava), me convidou para fazer um pedal até Peirópolis, distante 22 km de Uberaba. Aceitei, mas nunca imaginaria que seria tão duro, pensei em desistir, mas ele me empurrou na volta do percurso. Quando cheguei em casa, havia aquela dor gostosa e o prazer de ter conseguido, sem contar o sentimento de que em hora nenhuma estava sozinho. Isso me chamou a atenção nesse esporte. Pensei: me encontrei! Larguei o futebol, as trilhas de moto e me apaixonei pela MTB! Com esse amigo, o Rubem, fizemos diversas cicloviagens como a Rota Márcia Prado, entre outras. Rubem sempre me falava do tal Caminho da Fé (SP), mas nunca tivemos o prazer de percorrê-lo. Até que um dia, em umas de nossas trilhas, ele teve um infarto fulminante e veio a óbito, nos deixando um vazio muito grande e muita tristeza. Resolvi, então, fazer o Caminho da Fé. Convidei o Lima, outro companheiro aqui de Uberaba, e ele topou na hora, então, partirmos rumo à Aparecida – SP. E assim, minha vida com a MTB é intensa. Sempre falo e repito: ninguém faz sua história de aventura sentado no sofá. Hoje, minha esposa me acompanha nos pedais de Mountain Bike à Serra da Canastra, Represa de Jaguara, Araxá, Perdizes e muitos outros pedais”.

A companhia de cônjuges e familiares aparece como uma tônica também em Santa Catarina, de onde o querido empresário do ramo hoteleiro Renato Amorim, da cidade de Penha, envia seu testemunho: “tenho 47 anos, e sabe qual o presente que me dei quando completei 40 anos? Depois de profunda pesquisa, procurei um consultor de uma loja de bikes que montou um mountain bike personalizada pra mim, seguindo todas minhas características e desejos! Em dezembro de 2009, eu mais um colega, João, inauguramos o Circuito da Costa Verde & Mar, em Santa Catarina, completinho, com quase 300 Km, em cinco dias. Agora convenci minha esposa, a Marga, para ser parceira também nas pedaladas. Ela prontamente topou. Comprei uma pick-up com intenção de levar as bikes de carro até locais paradisíacos para sairmos pedalando”.

A utilização da MTB em cicloviagens é um fenômeno bastante comum, ainda que não seja a específica para a modalidade, dada a capacidade que esta configuração de bicicleta possui de interpretar terrenos acidentados ou não. Alexandre Favero, 40 anos, se motiva a cicloviajar em grupos usando sua MTB ao lado da esposa: “há uma espécie de união entre nós e os desafios da estrada. Percebo que o ciclismo proporciona transformações rápidas em nossas performances. Trocamos baladas noturnas pelas nossas Mountain Bikes. Sou designer, 40 anos, e minha esposa, Liane Santo, 42, advogada, ambos apaixonados pelo cicloturismo. Em junho, partiremos em uma bela viagem de bike entre Copenhagen e Estocolmo. Depois, alguns lugares na Alemanha e Holanda. Fazemos cicloviagens longas aos finais de semana e pedais urbanos com grupos de São Paulo”.

A utilização da MTB em cicloviagens é um fenômeno bastante comum… dada a capacidade que esta configuração de bicicleta possui de interpretar terrenos acidentados ou não.

Motivação para cicloviagens com a mountain bike não faltam a Alcione, com 49 anos, da cidade de Cananéia – SP. Ela e o marido, Valmir, formam o CasalPedal e vivem descobrindo novas oportunidades de viajar usando a MTB, além de competir: “comecei a viajar com minha mountain bike aos 42 anos! Posso lhe afirmar, com certeza, que foram os melhores anos da minha vida! Aventura, superação e fazer o que se ama! Espero continuar pedalando por muitos anos ainda”!

O piloto de aviões Sérgio Novis, baiano que vive em Maceió, 50 anos, com quem pedalamos enquanto esta matéria estava sendo preparada, teve a grande oportunidade de viver e pedalar no berço do mountain bike mundial. Ele defende e nós assinamos embaixo: não existe idade para o MTB! Veja o depoimento dele:

“O que o mountain bike, um esporte considerado radical e às vezes até perigoso pode ter em comum com um cara de 50 anos de idade? No meu caso, tudo! A mountain bike traduz perfeitamente o meu estilo de vida, de experimentar lugares novos, de descobertas, da velocidade e adrenalina que algumas vezes precisamos sentir na nossa circulação ao praticar este maravilhoso esporte. Quando ganhei minha primeira bicicleta, ainda criança, tive a chance de experimentar uma liberdade nunca sentida até os meus nove anos de idade. Não sei mais o nome do tal modelo mas as lembranças das escapadas para longe, do vento correndo no rosto, do pedalar nas poucas estradas de barro que encontrava (para um garoto criado na zona urbana e enladeirada de Salvador) são sensações muito vívidas em minha memória. Embora o MTB ainda não existisse no Brasil, posso dizer que pelo menos na minha mente de criança eu já curtia trilhas, pois nunca fui de girar em asfalto, parquinho de criança e locais comuns de se pedalar. Já fazia incursões a locais onde conseguia voltar sujo e enlameado, onde podia desbravar caminhos que não conhecia e isto certamente enlouquecia os meus pais naquela época. O tempo passou e, por volta dos 20 anos de idade, voltei a me interessar por bike. Desta vez, foi no local mais propício ao MTB, e posso dizer que assisti ao nascimento deste esporte quando morei na costa oeste americana, e nos estados do Colorado e Utah, berço do MTB mais radical que conhecemos até hoje. Posso dizer que namorei o esporte, mas devido às circunstâncias não deu em casamento. Experimentei, gostei, mas a minha condição de estudante não foi muito propícia para adquirir os equipamentos bastante caros naquela época e quando voltei ao Brasil, ao menos na região Nordeste onde morava, o esporte ainda não era difundido. Anos se passaram até poder adquirir, finalmente, uma mountain bike de verdade. Fui o primeiro das pessoas que conheço a ter uma destas e não faltaram estradinhas, caminhos de fazenda, lama e poeira no meu cardápio de pedalada, mas senti falta de uma coisa fundamental: companhia para praticar este esporte, que como pude entender mais tarde, é uma atividade muito mais prazerosa quando praticada em pequenos grupos de amigos com o propósito em comum de viajar, trilhar, descobrir novos caminhos e locais.

Por ironia, foi o meu filho, anos mais tarde, que me trouxe de volta para esta atividade, quando de um dia para o outro, com os seus 12 anos, em 2004, resolveu que queria fazer trilhas de bike. A esta altura, os equipamentos já haviam evoluído bastante e a oferta era bastante variada. Desta vez, sabia que nunca mais largaria este esporte e trilhamos por anos a fio. Ele, mesmo sendo tão novo, conheceu e me apresentou vários pequenos grupos de trilheiros e acabamos fazendo muitos amigos em comum, que são hoje talvez os melhores amigos que fiz na cidade de Maceió, onde moro hoje em dia. Meu filho, como em todos os esportes que praticamos juntos (bike, surf e skate), obviamente evoluiu muito mais que eu, e logo as simples trilhas ficaram muito monótonas para ele e faltava radicalidade. Ele passou para o Bike Trial, Downhill e na tentativa de acompanhá-lo tive várias lesões e rompimento de ligamentos que me deixaram meses ‘de molho’. O meu filho já não mora mais no Brasil e ainda mantenho uma segunda bike lá na casa dele, na Califórnia, onde o MTB começou e sempre que o visito temos o imenso prazer de pedalarmos juntos. Ele com o seu estilo e eu com o meu, de trilheiro cinquentão”.

Remoçar, rejuvenescer, reinventar-se… Mais do que um sonho perseguido pela humanidade é uma realidade para os praticantes
de MTB.

E quando percebemos, os anos somam-se. Porém, serão sempre menores que as experiências que ganhamos.

O uruguaio Wilder De Leon Corbo é da localidade de Las Piedras, no Departamento de Rocha – Uruguay, e tem 69 anos. Saúde e alcançar metas pessoais são sua grande motivação para seguir no MTB: “te conto que farei 70 anos e pedalo uns 400 km por mês. Comecei há uns 15 anos por problemas de saúde (hipertensão e colesterol alto). Hoje, me sinto muito bem e tudo está sob controle”.

Arestides Porangaba, de Maceió, voltou a pedalar aos 68 anos. Tivemos a grata oportunidade de pedalar ao seu lado dias atrás, pelas trilhas do caribe brasileiro. Com a simplicidade de quem não precisa provar mais nada a ninguém, Arestides tem uma ampla noção do conjunto de benefícios que o MTB lhe agrega: “retornei ao pedal há cinco anos e tenho 73 anos. Pedalar tem movimentado meu corpo e minha vida, tem definido com mais clareza meus limites e tem também movimentado minha mente, no sentido de me manter vivo, saudável e ativo pessoal e profissionalmente. Como testemunho das minhas atividades ciclísticas, participei recentemente do pedal na Estrada Real – Minas Gerais, pelo Caminho do Imperador, em Alagoas; Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha e, por fim, Patagônia Argentina e Chilena”.

Teríamos uma infinidade de depoimentos que, por lógica, não conseguimos colocar em poucas páginas. Eu mesmo, convivendo desde a infância com a Epilepsia Tônico Clônica Generalizada, hoje, com 44 anos e uma vida sobre rodas, não penso, um segundo sequer, em me afastar do mountain bike, e creio que teria muito a dizer sobre tudo o que esta prática transformou em minha vida, mas fica para uma próxima.

Para finalizar, nossa amiga e gentil psicóloga Simone Russo, 47 anos, lá de Manaus, arremata esta matéria com uma reflexão que vai muito mais além do dia de hoje e das trilhas: “a MTB me levou a um contato novo e intenso com a natureza me tornando uma pessoa com muito mais consciência ambiental. Quero que meus netos e bisnetos possam experimentar a mesma sensação. Sou um ser (substantivo) humano muito melhor depois que comecei a pedalar e a conviver com pessoas que me favorecem ser (verbo) mais humana”.

Viva a Bicicleta, sempre!

© Scott Divulgação

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